Ttulo: Vingana do corao.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1986.
Ttulo Original: Revenge of the Heart.


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Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


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Vingana do corao

Barbara cartland
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes 
de livros vendidos em todo o mundo

Vingana do corao
As guas do rio Sena brilhavam freneticamente, refletindo o brilho 
fantstico das luzes de Paris. Lgrimas tambm brilhavam nos olhos de 
Ndia, mostrando a dor de seu jovem e sofrido corao. O Sena a chamava, 
prometendo-lhe no gozo de suas guas o fim das perseguies,
tentando seduzi-la com a volpia de seu misterioso beijo da morte.
De repente, um homem a agarrou! Ndia sentiu que seria difcil se 
libertar daqueles braos fortes, daqueles olhos negros que a dominavam 
com doce e surpresa censura...

Vingana do corao
Ttulo original: Revenge of the Heart
Copyright: (c) Cartland Promotions 1984
Traduo: Erclia Magalhes Costa
Copyright para a lngua portuguesa: 1986
Editora Nova Cultural Ltda.
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e impressa 
na Editora Parma Ltda.
Nova Cultural - Caixa Postal 2372

NOTA DA AUTORA
Durante o reinado do czar Alexandre iII, da Rssia, os judeus foram 
perseguidos cruelmente. Outra perseguio desse porte s se deu 
cinquenta anos mais tarde, quando Adolf Hitler assumiu o poder, na 
Alemanha. O czar ordenou que um tero dos judeus fosse exterminado. Um
tero deveria emigrar e o outro tero deveria ser assimilado.
Tal programa de terror resultou na morte de milhares de judeus, na 
confiscao de seus bens e na emigrao de 225. O00 deles para a Europa 
Ocidental.
Em 1892 o irmo do imperador, o gro-duque Serge, provocou o terror entre 
pequenos artesos e comerciantes judeus, que viram suas casas cercadas 
pelos cossacos durante a noite. Tirados de suas camas enquanto dormiam, 
foram expulsos ou mortos, acusados de traio ou de outros crimes.
Em meados de 1894 o czar ficou gravemente enfermo, com hidropisia. Essa 
doena foi consequncia de um desastre de trem que afetou seus rins. 
Depois de sofrer horrivelmente, o czar morreu a 11 de novembro de 1894.
O prncipe Nicolau, filho do czar Alexandre in, foi coroado como czar 
Nicolau II e reinou at 1917. Em 1918 ele e sua famlia foram 
assassinados pelos bolchevistas.

CAPITULO I
1894
Warren Wood entrou no Hotel Meurice e se apresentou ao recepcionista. 
Warren havia estado ausente da Europa durante quase um ano e somente 
depois de o recepcionista encaminhlo para o gerente  que ele foi 
reconhecido.
- Que prazer v-lo novamente, monsieur Wood! - disse o gerente em um 
ingls perfeito. - Espero que tenha apreciado sua viagem para o exterior.
"Viagem" no seria bem o termo que Warren usaria para descrever sua ida 
ao norte da frica, onde ele havia experimentado momentos de grande 
prazer mas, tambm, muito desconforto e, por inmeras vezes, perigo de 
vida. Entretanto, ele estava contentssimo por estar de volta a Paris e
no queria perder tempo com conversas. Perguntou apenas se havia quarto
para ele, de preferncia o mesmo onde sempre costumava ficar. Depois 
pediu que sua bagagem, que havia ficado guardada no hotel durante quase 
um ano, fosse mandada para seu quarto.
O gerente prometeu-lhe providenciar tudo imediatamente, com toda a 
gentileza que caracteriza os franceses.
Como Warren fizesse meno de se afastar, o gerente lhe disse:
- H correspondncia para o senhor. Quer que eu a apanhe agora ou prefere 
que seja mandada daqui a pouco para seu quarto?
- Posso peg-la agora se estiver  mo.
O gerente entrou em um pequeno cmodo e voltou com uma poro de cartas 
amarradas com um cordo, formando um grande pacote.
Warren Wood apanhou o pacote e esperou que um dos pajens trazendo sua 
mala fosse  sua frente para indicar-lhe Seu quarto.
O quarto, apesar de no ser o mesmo onde ele sempre costumava ficar, era 
idntico e ficava tambm no quarto andar; dali tinha-se uma vista 
maravilhosa dos telhados das casas e das rvores de Paris.
Enquanto esperava pelos carregadores com sua bagagem, Warren ficou  
janela, achando que no podia haver algo mais lindo que Paris banhada 
pelos raios do sol da tarde.
Bem acima das casas com suas janelas cinzentas erguia-se, majestosa, a 
Torre Eiffel, com seus trezentos metros de altura. A torre havia sido 
concluda cinco anos antes, para uma exposio. Quando viera da estao, 
Warren havia admirado a torre, um marco inconfundvel da Cidade Luz.
Toda aquela estrutura rendada, de metal, era para os franceses, 
orgulhosos de sua ptria, o smbolo da criatividade, do vigor e do 
brilhantismo da Frana.
No momento, entretanto, Warren estava interessado em seus prprios 
sentimentos de frustrao e desespero.
- Como se a torre, cujos contornos se delineavam contra o cu, o fizesse 
lembrar de algo que ele estivesse determinado a esquecer, Warren afastou-
se da janela. Deu gorjetas aos carregadores que esperavam  porta, 
sentou-se em uma poltrona e comeou a olhar a correspondncia.
Para surpresa dele, havia tantas cartas que ficou pensando em quem 
poderia se preocupar em escrever-lhe, desde que deixara a Inglaterra,
alm de sua me.
Depois de desamarrar o cordo, rasgou tambm a tira de papel que envolvia 
as cartas, olhou para uma delas no alto da pilha e ficou rgido. No 
podia acreditar no que estava vendo!
Mas no havia engano: a letra floreada, o envelope azul-claro, o suave 
perfume de magnlias, tudo lhe era to familiar; tudo refletia to bem a 
personalidade da remetente!
Warren ficou com o envelope em suas mos, fitando demoradamente, como se
estivesse fascinado.
"Por que iria Magnlia, justo ela, escrever para mm e ainda aqui para 
Paris?", ele se perguntava.
Naturalmente, havia conseguido o endereo dele com sua me, que era a 
nica pessoa a saber onde ele se hospedaria ao voltar da frica e antes 
de ir para sua casa, na Inglaterra.
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Porm, se havia uma pessoa de quem ele no queria nem ouvir falar naquele 
momento era Magnlia.
Ento, franzindo levemente as sobrancelhas e apertando os lbios, abriu o 
envelope.
Warren Wood era um homem excessivamente atraente. Sua aparncia, 
entretanto, no era mais aquela de antigamente, que o qualificava de 
elegante, frequentador de altas rodas e presena obrigatria em todos os 
eventos sociais importantes. Agora desaparecia o dndi para ceder lugar a 
outro Warren mais msculo, mais duro e insensvel e at mais cruel.
Teria sido impossvel viver todas as experincias que partilhara com 
Edward Duncan sem ter aprendido que a vida no  apenas uma sucesso de 
prazeres e diverses, como havia sido para ele no passado. Sua vida, 
doravante, jamais voltaria
a ser a mesma.
s vezes, na frica, Warren havia pensado que no suportaria viver sem 
conforto. Mas devia admitir que o Warren dndi havia sido derrotado pelos
elementos, pela comida intragvel e, sobretudo, pelos camelos.
Ah, os camelos! Que animais desagradveis, difceis de lidar e 
fedorentos! Os camelos cheiravam to mal que, at acostumar-se mais com 
eles, Warren sentia nuseas.
S depois de meses de sofrimento ele aprendera a dominar os horrveis 
animais. Mas eram os cavalos que ele amava e no podia imaginar sua vida 
sem eles ou sem cachorros.
Warren pensava at que os camelos faziam-no lembrar de alguns amigos e 
conhecidos. Uma vez ele dissera a Edward:
- Certamente, no futuro, vou fugir dessas pessoas sempre que puder!
Edward rira daquela observao to zombeteira. Quando os dois amigos se 
separaram, na manh anterior, em Marselha, Edward dissera:
- Adeus, Warren! No tenho palavras para lhe dizer o quanto apreciei sua 
companhia e que grande prazer foi t-lo comigo.
Havia tanta sinceridade na voz de Edward que Warren se sentiu 
ligeiramente embaraado, pensando em quantas vezes ele havia maldito sua 
sorte por ter aceito o convite de Edward.
Entretanto, sabia, ao repassar na memria os longos meses ao lado do 
amigo, que aquele tempo todo servira para enriquecer seu carter, 
alargar-lhe os horizontes de maneira inimaginvel.
Todavia, ali estava ele, de volta  Europa, diante de uma carta de 
Magnlia. Sim, a mesma Magnlia que ele procurara esquecer quando partira 
para a frica.
Como se lembrava daquela tarde em que estava sentado em seu clube em St. 
James's, com um copo de brandy na mo! Edward se aproximara e sentara-se 
numa cadeira a seu lado, dizendo:
- Alo, Warren! No o tenho visto h tanto tempo!  verdade que tambm
estive no campo.
- Alo!
O tom de voz de Warren fez Edward olhar para o amigo seriamente,
mostrando sua preocupao.
- O que est acontecendo? H quanto tempo no o vejo assim deprimido! 
Acho que desde aquela vez em que foi derrotado no campeonato de salto, no 
colgio, em Eton!
Warren no respondeu, apenas olhou para seu copo e Edward insistiu:
- O que o aborrece, homem? Se eu puder fazer alguma coisa...
- No. No pode fazer nada por mim, a no ser que possa me ensinar qual  
o melhor modo de dar um tiro nos miolos.
Edward no escondeu o espanto e analisou a expresso do amigo 
detalhadamente antes de perguntar:
- Est falando srio mesmo?
- Muito srio! S penso que se der um tiro nos miolos vou deixar minha 
me muito triste. E  ela a nica pessoa em que posso confiar neste mundo
maldito, nojento, imundo, onde s h mentiras e falsidades!
Falou com tamanha violncia e dio e to alto que Edward olhou ao redor
para certificar-se de que no havia ningum por perto.
Felizmente havia apenas dois scios j idosos, sentados em suas poltronas 
e pareciam estar tirando uma soneca, esquecidos de tudo e de todos.
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- No estou reconhecendo voc! O que  que aconteceu? Warren deu uma
risada amarga e Edward, que conhecia o
amigo desde o tempo de escola, em Oxford, observou que ele havia bebido 
muito mais do que costumava, o que no era comum. Warren comeava a ficar 
tagarela.
- Vamos, Warren, diga-me o que est acontecendo! - ele insistiu.
Como se estivesse alegre por ter com quem partilhar seus sentimentos, 
Warren respondeu:
- No  uma histria muito original, mas acabo de ter certeza de que a 
nica coisa que conta neste mundo  o que um homem possui e no o carter 
dele.
- Voc no pode estar falando de Magnlia!
- E de quem mais poderia ser? Quando a levei para Buckwood para passarmos 
uns dias l, jamais me passou pela cabea que no estivesse apaixonada 
por mim. Ela sempre havia jurado que me amava!
Fez uma pausa, enquanto apertava com fora o copo que tinha na mo. 
Depois disse com mpeto:
- Eu a amava, Edward! Amava-a com todas as foras de meu ser! Era tudo o 
que eu mais queria na vida! A mulher perfeita com que eu sonhara para ser 
minha esposa.
- Sim, sei disso - respondeu Edward com calma. - Mas o que aconteceu?
Novamente Warren deu a mesma risada amarga e desagradvel antes de 
responder:
- Voc nem pode imaginar! Ela conheceu Raymond! Edward encarou o amigo 
demonstrando seu espanto.
- Voc quer dizer... o seu primo? Mas meu Deus! Ele  pouco mais que uma 
criana!
- E o que importa isso, se ele  muito rico, o nico herdeiro de todos os 
bens do marqus de Buckwood? - o tom de voz de Warren era sarcstico. - 
Meu caro Edward, voc deve compreender o que eu, por ser muito idiota, s 
compreendi tarde demais: o homem, ou seja, o ser humano no vale pelo que 
, mas pelo que tem. No  o carter que importa.
Edward quis dizer alguma coisa para confortar o amigo, mas Warren 
continuou, amargo:
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- Um homem pode ter pernas tortas, ser estrbico, ter verrugas no nariz, 
mas se est para se tornar um marqus, seus defeitos desaparecem. Arranja 
uma linda noiva que at diz que est apaixonada por ele! Pode uma coisa 
dessas ser verdade? Me diga se pode! O que no faz uma mulher ambiciosa 
para se tornar uma marquesa!
As ltimas palavras foram ditas com a voz estrangulada e Warren bebeu o 
brandy que restava em seu copo e relanceou os olhos pelo salo  procura 
do garom. Felizmente no havia nenhum por ali naquele momento e Edward 
disse:
- Antes que voc fique bbado demais, Warren, conte-me toda a histria. 
Estou no s interessado, mas tambm solidrio com voc.
- Muito obrigado, amigo velho! Suponho que posso confiar em voc. Acho 
que no vai me desapontar. Entretanto, juro que jamais confiarei em uma 
mulher novamente! Jamais!
- Ora vamos! - protestou Edward. - E... Magnlia no pretende se casar 
com Raymond?
- Mas  claro que sim! Agora que penso sobre o assunto e comeo a 
analisar friamente, vejo que ela estava determinada a conquistar Raymond 
desde que ps os ps em Buckwood! Acho mesmo que meu primo nem mesmo teve 
a chance de escapar assim que Magnlia ps sobre ele aqueles seus olhos 
lindos e feiticeiros.
Edward sabia que isso era mais que provvel.
Magnlia Keane era no s linda, mas tinha tambm o poder de fascinar os 
homens. Podia exercer uma influncia quase hipntica sobre qualquer 
pessoa que desejasse dominar.
Edward conhecia Magnlia muito bem antes de ela conhecer seu amigo 
Warren. Quando os viu juntos pela primeira vez, ele havia pensado que o 
envolvimento do amigo com uma mulher daquelas era um grande erro.
Vindo de uma boa famlia do interior, Magnlia mudara-se para Londres com 
o firme propsito de encontrar um marido rico e importante. Teria sido 
muito fcil, Edward pensou, considerando que era lindssima. Seu pai, um 
famoso treinador de ces caa-raposa, tinha uma matilha desses belos 
animais e inmeros amigos nos crculos desportivos.
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Todavia, o pai de Magnlia no era um homem rico. Havendo economizado 
muito e sendo at sovina, o coronel Keane conseguiu juntar o suficiente 
para alugar uma casa em Londres.
O coronel e sua esposa sonhavam com a filha participando dos bailes da 
temporada. Era costume retribuir aos convites e os pais de Magnlia no 
tinham condies de oferecer festas e bailes  sociedade londrina. Assim 
o Coronel, a sra. Keane e Magnlia no foram convidados para nenhum baile 
importante. com isso, Magnlia viu bem reduzidas as chances de conhecer 
um futuro marido rico e influente.
Durante a primeira temporada ela no recebera uma nica proposta de 
casamento, apesar de muitos homens se interessarem por ela. Infelizmente 
a maioria deles era casada.
Como consequncia disso, as senhoras mais velhas, dadas a mexericos, 
faziam comentrios maldosos sobre Magnlia e seu nome foi riscado de uma 
poro de listas de convidados que as senhoras da sociedade londrina 
faziam questo de manter e seguir meticulosamente.
No ano seguinte, Magnlia brilhou como uma estrela, em sua cidade, em uma 
poro de bailes da temporada de caa. Foi a inmeras corridas de cavalo 
e vivia cercada de admiradores jovens e velhos. Ento ela voltou a 
Londres com os pais.
Dessa vez ela estava determinada a ter um anel de noivado em seu dedo! 
No houve anel de noivado algum, mas ela encontrou um distinto baronete 
dezoito anos mais velho que ela, o qual se tornou seu par constante em 
todos os eventos e, quando estavam a ss, ele a perseguia sem descanso 
como um co persegue uma raposa.
Magnlia brincava com ele como um pescador brinca com um peixe que j 
sabe estar bem preso ao anzol. Todavia, o que parecia ser um peixe bem 
fisgado, escapou no ltimo momento, deixando Magnlia frustrada, quando 
j comeava a pensar, realmente, no enxoval.
Mal pde acreditar no que ouvia quando o baronete lhe disse que havia 
feito alguns investimentos extremamente altos e, infelizmente, perdera 
muito dinheiro. Assim, seria impossvel para ele conservar sua casa, suas 
propriedades, a menos que,
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para diz-lo de modo mais vulgar, ele se casasse por dinheiro, ou seja: 
que desse o "golpe do ba".
Magnlia decidiu que o melhor a fazer era levantar a cabea e, com 
determinao, ignorou o que fora ela, na verdade, um desastre e uma 
humilhao.
Assim que compreendeu que havia perdido seu baronete, disse s amigas, de 
maneira mais do que convincente, que era impossvel casar-se com um homem 
bem mais velho que ela. Alm disso, no o amava, portanto o melhor que 
poderia fazer era mand-lo "passear".
- Seria idiotice de minha parte - ela dizia - casar-me com um homem que 
no amo. Quero ter um marido que eu possa amar e com ele aproveitar a 
vida. O pobre James j nem nimo tem, coitado!
Algumas pessoas logo perceberam a verdade; a maioria, porm, concordava 
em que Magnlia, linda e jovem que era, teria muito tempo para encontrar 
algum que fosse realmente digno dela.
Somente Magnlia sentia que o tempo estava passando e, se no fosse 
esperta, acabaria ficando "encalhada".
Ela sabia muito bem que muitos homens preferiam casar-se com uma jovem 
inocente, pois acreditavam que tornavam-se esposas perfeitas. Era algum 
assim que Magnlia queria conquistar.
Outros homens preferiam algo mais que uma "jovem inocente" para esposa e 
procuravam as belas e sofisticadas mulheres que frequentavam Marlborough 
House. Elas viviam nas colunas sociais e eram aplaudidas e admiradas 
principalmente nos crculos masculinos.
Quando Magnlia conheceu Warren estava desesperada, pois logo completaria 
vinte e um anos.
Warren Wood reunia o que ela mais apreciava em um homem: ele era belo, 
muito bem-educado e frequentava os mais altos crculos sociais.
O pai de Warren, lorde John Wood, era o irmo mais jovem do marqus de 
Buckwood e, Magnlia sabia, no podia haver em todo o Reino Unido famlia 
mais respeitada e, admirada do que a do marqus.
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A casa da qual o primeiro marqus havia tirado seu nome ficava em uma 
propriedade imensa, presente da rainha Elizabeth a sir Walter Wood, em 
reconhecimento por ele haver afundado trs galees espanhis.
Sir Walter Wood havia trazido para a rainha no somente os esplios da 
vitria, mas tambm prolas finssimas que ele havia tirado de seus 
prisioneiros.
Assim que Magnlia viu Warren, disse a si mesma que aquele homem seria 
seu.
Todavia, mesmo quando se certificou de que ele no tinha muito dinheiro, 
pensou em como todas as portas se abririam para ela e em como seria um 
sucesso socialmente falando. Casando-se com Warren seria tambm uma das 
beldades que frequentavam Marlborough House.
Warren, com vinte e oito anos, havia tido muitos romances com as mais 
lindas mulheres e era considerado por elas um homem encantador. 
Entretanto, ao conhecer Magnlia ficou estonteado com a beleza dela.
Havia em Magnlia, ele pensava, algo irresistvel. Seus olhos escuros e 
expressivos, sua pele clara e macia faziam-na muito semelhante  flor que 
lhe emprestava o nome.
Infelizmente, para Magnlia, quando Warren pensou em que deveriam ficar 
noivos oficialmente, a me dela morreu. Seria considerado muito imprprio 
se eles anunciassem seu noivado estando Magnlia de luto. Deviam esperar, 
tambm, depois do noivado, mais uns meses para anunciar o casamento.
Magnlia queria fazer tudo conforme os costumes da sociedade e o noivado 
de ambos ficou sendo um segredo precioso dos dois.
- Compreendo suas razes, minha querida - disse Warren -, mas s quero 
que saiba que no vejo a hora de torn-la minha esposa. "
- Eu o amo muito! Muito! - Magnlia respondeu. - Se  difcil para voc 
esperar, para mim  muito mais!
Ele pensava, ao beij-la apaixonadamente, que ningum podia ser mais 
adorvel, principalmente quando se mostrava ligeiramente tmida.
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Depois de se libertar dos braos de Warren, mas ainda segurando-lhe a 
mo, ela disse, parecendo encabulada:
- Devemos ser cautelosos e evitar que nos vejam assim nos beijando... por 
causa dos comentrios. Tambm queria lhe dizer, querido e adorvel 
Warren, que seria maravilhoso se eu pudesse conhecer sua famlia.
Ele sorriu.
- Acho que est ansiosa para conhecer Buckwood!  a propriedade mais 
linda do mundo! S sinto que no seja minha, pois voc  mais do que 
digna de viver em um lugar como aquele!
Ento Warren explicou a Magnlia que, apesar de Buckwood pertencer ao 
tio, este, um homem bonssimo, adorava a presena do sobrinho na 
propriedade.
Warren podia montar os cavalos do tio, cavalgar por toda a propriedade e 
caar nos bosques. A me de Warren morava em uma encantadora manso 
antiga, tambm nas terras do tio. Essas terras eram divididas em diversas 
fazendas, mas a principal delas era Buckwood.
- Nossa famlia  muito unida - disse Warren -, tenho certeza de que tio 
Arthur vai ficar encantado com voc, como meu pai tambm ficaria se 
estivesse vivo.
Lorde John morrera h quinze meses e Warren sentia desesperadamente a 
falta dele; instintivamente ele havia posto o tio no lugar do pai.
Tinha certeza de que o tio iria achar Magnlia to encantadora e adorvel 
como ele mesmo a achava. Ao mesmo tempo, queria que o tio aprovasse seu 
casamento. Assim, na primeira oportunidade levou Magnlia para Buckwood.
Eles ficaram, claro, na manso com lady John, me de Warren.
Ele notara que Magnlia estava mais fria e reservada com ele, ali em 
Buckwood, mas atribuiu isso ao fato de ela estar um pouco tmida e talvez 
ansiosa demais por estar conhecendo a famlia do homem que iria tornar-se 
seu marido.
O marqus, como Warren havia esperado, encantou-se com Magnlia.
Como o noivado era mantido em segredo, Warren disse ao
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tio, apenas, que estava pensando em um compromisso mais srio com 
Magnlia e que gostaria de ouvir a opinio dele a respeito.
- Magnlia  uma encantadora moa, meu caro rapaz! S espero que ela 
goste do campo, pois se no gostar, no serve para voc.
- Ela foi criada no interior e o seu pai cria e treina ces de raa.
- , voc me disse mesmo. Acho que conheci o pai dela... Sim, conheci-o. 
tima pessoa. Ento a filha dele deve, certamente, saber seguir os ces 
numa caada.
- Claro que sabe! - disse Warren com entusiasmo.
Ao mesmo tempo pensava consigo mesmo, embora detestasse admiti-lo, que, 
quando vira Magnlia montando um cavalo, no ficara bem impressionado 
como pensou que ficaria.
Naquele dia havia atribudo a falta de jeito dela ao seu nervosismo.
Jamais lhe passara pela cabea que ela estava com medo de cair e ferir 
seu lindo rosto.
Todavia, ele nem se preocupava se Magnlia sabia ou no cavalgar. Isso 
era uma falta muito pequenina em uma pessoa que parecia ser perfeita em 
tudo.
Como de costume, havia muitos hspedes em Buckwood, todos amigos do 
marqus. Logo depois que Warren e Magnlia chegaram, Raymond tambm 
chegou com mais trs colegas de escola.
Os quatro vinham diretamente de Oxford, eram muito alegres, barulhentos e 
sempre dispostos a se "divertirem". Suas brincadeiras incluam desde 
descer escorregando pelo corrimo da escada, sentando-se sobre bandejas 
de ch, at a pregar peas nas pessoas, inclusive em Magnlia.
Ela participava das brincadeiras de um modo que fez Warren admir-la 
ainda mais. Ficou encantado com o esprito esportivo de Magnlia, que se 
divertia com os rapazes, sorria das provocaes que lhe faziam, como se 
ela fosse um gatinho, e preferia a companhia deles  das pessoas mais 
velhas.
Estava muito frio e, no dia seguinte, quando o gelo sobre
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o lago j estava bem slido e espesso, todos foram patinar. Surpreso,
Warren constatou que Magnlia era uma excelente patinadora.
Ela era uma figura maravilhosa que se destacava das demais por seu porte 
elegante, seu corpo gil e esguio. Um gorro de pele de raposa prateada 
emoldurava-lhe o rosto. Magnlia estava corada pela atividade intensa que 
o esporte exigia e seus grandes olhos escuros, de longos clios, 
brilhavam de alegria.
Os rapazes brigavam entre si, pois todos queriam patinar com Magnlia. Os 
que no conseguiam t-la como par, contentavam-se em ficar patinando 
perto dela.
Warren apenas olhava os jovens com complacncia e se orgulhava da graa e 
comunicabilidade da noiva. Apesar de adorar patinar sobre o gelo, no 
gostava de faz-lo com aqueles garotos ruidosos que gostavam de 
acrobacias e tinham mais prazer nas competies do que no esporte em si. 
Por isso Warren deixou a companhia dos mais jovens e foi cavalgar com o 
tio.
O marqus, devido  idade, preferia esportes mais suaves. Enquanto 
cavalgava, o velho nobre ia contando ao sobrinho a situao de suas 
terras e de seus bens. Falou sobre as providncias que j havia tomado 
para deixar tudo em ordem para Raymond poder administrar com eficincia o 
que por herana lhe caberia.
Entretanto, o marqus sabia que o filho era ainda muito irresponsvel e 
no se interessava pelos negcios do pai. Assim, o marqus resolveu 
abrir-se com o seu sobrinho e pedir sua ajuda.
- Gostaria que Raymond fosse um pouco mais ajuizado e tivesse maior 
interesse pelo patrimnio que herdar de mim. Por favor, converse com 
ele. Faa-o ver que propriedades enormes como as minhas s podem ser 
administradas se o dono controlar tudo que est sendo feito e todos os 
empregados que trabalham para ele.
- Tenho certeza de que Raymond compreende tudo isso, tio Arthur, mas 
ainda  jovem. Esta manh, por exemplo, ele e seus companheiros pareciam 
um bando de crianas brincando uns com os outros. com o tempo vai ficar 
mais ajuizado e
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ser um timo administrador destas terras e de todos os seus bens. Ser 
assim como o senhor.
- Queira Deus! Sinceramente,  o que desejo - murmurou o marqus.
Depois, mudando de assunto, ele continuou:
- Agora quero lhe falar sobre o nosso novo capataz. Parece que o homem 
no est se ajeitando muito bem com o tipo de servio...
E l foram os dois conversando enquanto cavalgavam at que, vendo que 
entardecia, retornaram a Buckwood.
J escurecia e os patinadores haviam voltado do lago. Estavam todos ao 
redor da mesa de bilhar. Continuavam com suas brincadeiras, piadas e a 
algazarra costumeiras. Warren os observava e se enternecia olhando para 
Magnlia.
Ela parecia muito feliz e estava linda com as faces coradas e os cabelos 
agora soltos, levemente desalinhados.
Queria toma-la nos braos e beij-la, mas quando tentou tir-la da 
companhia dos jovens, ela lhe disse baixinho que talvez fosse um erro se 
desaparecesse do salo.
- Amo-o demais querido, mas devemos ser muito, muito cautelosos - ela 
disse com ternura.
Ele compreendeu e foi at a biblioteca para ler os jornais recm-chegados 
de Londres.
Enquanto se dirigia para a biblioteca, pensava em como Magnlia era 
adorvel e como se adaptava bem a cada situao. Sem dvida, ela seria 
uma esposa perfeita.
Somente quatro dias mais tarde, quando os dois voltavam para Londres foi 
que a bomba explodiu.
Depois de saber a verdade, Warren pensou melhor em tudo que havia 
acontecido e viu como havia sido um perfeito idiota por no perceber o 
que acontecia diante de seus prprios olhos.
Todas as noites, em Buckwood, havia bailes. Para essas festas vinham
rapazes e moas das fazendas vizinhas, a convite de Raymond. A manso 
vivia dias alegres e movimentados.
Raymond organizara tudo com muita habilidade. Primeiro tocavam valsas, 
bem do agrado dos mais velhos e Warren as danava com Magnlia. Depois 
era a vez das barulhentas e
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vivazes quadrilhas, alm de lancers e reels, estas duas danas escocesas, 
as quais eram danadas em ritmo alucinado, rapazes e moas rodopiando 
entre gritos de alegria e risos descontrados.
Tudo parecia prprio dos jovens e era muito divertido, o que fez Warren 
pensar que estava ficando velho para tanta agitao e barulho. Todavia, 
alguns anos antes, o prprio prncipe Charles havia lanado a moda das 
brincadeiras e dos chistes nas festas, nas quais ele prprio se divertia 
a valer.
Agora Warren percebia que apreciava bem mais uma partida de bridge.
Foi somente quando vira Raymond conversando baixinho com Magnlia na 
vspera de voltarem para Londres que estranhou aquela intimidade. Mas 
atribuiu ao fato de os dois terem ficado to bons amigos e, na verdade, 
at se alegrara com isso.
Porm, quando voltavam para Londres em um vago particular, estando a 
criada de Magnlia no compartimento ao lado do deles, foi que a moa 
falou, com alguma hesitao:
- Preciso lhe dizer uma coisa, Warren.
- O que  minha querida?
- Quero que compreenda que, apesar de eu am-lo demais, no posso me 
casar com voc.
- Mas o que est dizendo?
A voz dele soou rspida pois ele ficara atnito e at pensou que ouvira 
mal.
Ela ergueu os olhos suplicantes, dizendo:
- Por favor, no fique zangado comigo!
- Claro que no me vou zangar com voc! E por que deveria? No estou 
entendendo nada do que est falando!
- Estou dizendo, meu querido Warren, que, apesar de amar voc, vou me 
casar com Raymond!
Warren apenas olhou fixamente para ela, os olhos muito abertos, sentindo 
a cabea girar, sem poder atinar com o significado daquelas palavras 
cruis.
Depois, com uma voz que no parecia a sua, ele disse num mpeto:
- Vai casar-se com Raymond? Como? Ele mal atingiu a maioridade!
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- Ele quer se casar comigo e eu lhe pedi para esperar, claro, at eu 
poder tirar o luto.
- Ento est pensando mesmo em... em fazer isso comigo?
- suas palavras saram trmulas de indignao.
- Sinto, realmente, muitssimo, meu querido Warren, mas tem que 
compreender.
- Tenho que compreender o qu?
Ela hesitou, porm nem precisava dizer nada. Warren pressentiu a verdade.
- O que est querendo me dizer  que Raymond vai tornar-se o marqus de 
Buckwood!
- Voc mesmo disse que eu era digna de viver em um lugar como aquele!
- E voc fez o possvel para conseguir isso, no?
Ele se sentiu zonzo, parecia que o trem estava dando voltas e mais 
voltas. Percebeu ento que j se aproximavam da estao de Paddington. 
Magnlia havia calculado at o tempo para fazer aquela revelao horrvel 
coincidir com a chegada deles a Londres.
Um minuto mais tarde a porta do vago foi aberta por um carregador, a 
criada de Magnlia apareceu e no houve mais tempo nem oportunidade de 
eles continuarem o assunto.
Uma carruagem fechada estava esperando por Magnlia. Warren ajudou-a a 
subir, deu-lhe o chapu e se afastou, caminhando. A carruagem seguiu para 
o lado oposto.
Desde que haviam sado do trem no haviam trocado uma palavra. Warren 
tomou uma carruagem de aluguel e ordenou ao cocheiro que o levasse at 
seu clube. Estava at trmulo de dio.
Ao mesmo tempo, uma desesperadora sensao de perda irreparvel o 
dominou. Era como se o mundo desabasse sobre sua cabea.
Ele havia amado Magnlia como jamais amara mulher alguma! Havia 
acreditado que ela sempre fora sincera quando jurava am-lo tambm.
Agora farrapos soltos de conversas vinham  sua mente.
- Receio que jamais seremos ricos, minha querida - ele dissera uma vez -, 
apesar de meu pai ter deixado uma tima
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renda para minha me, jamais terei uma fortuna slida como a do meu tio.
- Eu o amo pelo que voc  - dissera Magnlia com voz suave e melodiosa. 
- Mesmo que no tivesse um centavo, eu o amaria mesmo assim!
- Minha querida, como pode algum ser to maravilhosa? Em outra ocasio 
ele havia dito:
- To logo voc permita que eu participe a meu tio que estamos noivos, 
tenho certeza de que ele vai querer nos dar uma das casas que tem em suas 
terras. H diversas delas que, apesar de no serem manses enormes, so 
muito aconchegantes e tenho certeza de que voc ser capaz de transformar 
qualquer uma em um lugar encantador.
- vou torn-la um lar maravilhoso para ns dois.
- Sei que far isso, meu amor! Essa ser nossa casa de campo, mas  claro 
que teremos nossa casa em Londres tambm.
- Quero que a casa de Londres seja bem grande para podermos receber seus 
amigos. No  porque vai ser um homem casado que vai perder os amigos que 
tanto o estimam. Sei que as mulheres tero inveja de mim por ter como 
marido um homem to inteligente, maravilhoso e atraente como voc!
- Prometo que vou comprar uma casa com uma sala de jantar muito grande e 
com um salo de recepes.
Acabando de dizer isso ele pensou se poderia mesmo comprar uma casa 
assim.  verdade que desde que conhecera Magnlia comeara a economizar 
para poder oferecer as coisas mais finas  sua futura esposa.
Felizmente, com tantos amigos ricos e importantes, com certeza passaria a 
maior parte do tempo indo s festas que eles ofereciam do que convidando-
os  sua casa. Ele tinha certeza de continuar a ser sempre bem-recebido 
depois de casado como agora que era solteiro.
Ele pensou ento que essas festas exigiriam lindas roupas principalmente 
para sua esposa e imaginou como havia sido um perdulrio at ento. De 
agora em diante precisava cortar muitas das extravagncias a que se 
permitia como homem solteiro que era.
Todavia, amando Magnlia como ele amava, nada seria sacrifcio.
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Queria esquecer de si prprio e depositar tudo o que fosse mais
fino aos ps dela como tributo de seu amor.
No! Warren no podia acreditar que, tendo jurado am-lo tanto, Magnlia 
pudesse casar-se com um rapaz que era to jovem quanto ela e totalmente 
imaturo.
Raymond no era nada inteligente e no tinha outros interesses que no os 
de se divertir bastante sem se preocupar com nada srio.
O marqus, apesar de no demonstrar, estava muito decepcionado com o 
filho. As notas de Raymond na escola no eram boas e, por duas vezes, 
esteve para ser expulso de Oxford por no levar os estudos a srio.
Quando o marqus tentava fazer com que os interesses do filho se 
voltassem para as vastas propriedades do pai, ele no havia demonstrado o 
menor entusiasmo. S pensava mesmo naquelas terras como um meio de se 
divertir.
Warren jamais pensara em Raymond como um homem ou um adulto. Para ele o 
primo no passava de uma criana. Tampouco podia pensar nele como marido 
de algum, muito menos de Magnlia.
Pensar que Magnlia ia casar-se com Raymond s pelo ttulo de marqus de 
Buckwood que ele iria herdar, um dia, fez Warren sentir-se horrorizado, 
desgostoso, e humilhado. Todavia ele ainda a amava, ainda desejava aquela 
mulher e sentia que a vida sem ela no teria sentido.
Depois de chegar ao clube e de beber uma quantidade enorme de brandy, 
pensava que a questo no era como poderia viver sem Magnlia, mas sim 
que ele no queria viver sem ela.
Foi ento que Edward o encontrou.
- Agora escute, Warren - disse Edward. - Tenho uma sugesto a fazer e 
gostaria que pensasse no assunto seriamente.
- A coisa mais sensata que tenho a fazer  atirar-me no Tamisa! No vou 
me afogar porque sou um excelente nadador, mas posso morrer de frio - a 
voz dele era lenta e pastosa.
- Tenho uma sugesto bem melhor!
- Sugesto?
- Quero que embarque para a frica comigo!
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- Para a frica?
A nota de surpresa que Edward notou na voz do amigo fez com que ele 
observasse que, pelo menos, havia despertado alguma curiosidade.
- vou at a frica. Quero obter material para meu novo livro. Tambm 
tenciono ir a Marrocos explorar partes do deserto de Saara. Pretendo ir a 
lugares onde, segundo imagino, jamais ingls algum chegou. E sempre h a 
oportunidade de fazermos excelentes caadas. Ou ainda, se quiser algo 
mais excitante, poderemos nos perder em meio a uma tempestade de areia
ou, ainda, h a alternativa de sermos devorados por uma tribo hostil!
- ... Qualquer dessas alternativas seria excelente para resolver meus 
problemas.
- Concordo em que todos esses so meios no muito comuns de se morrer.
Houve um momento de silncio e depois Edward voltou a insistir:
- Vamos! Aceite meu convite. Tenho certeza de que no se arrepender. 
Pelo menos, no vai precisar ficar sentado aqui bebendo desse jeito 
enquanto pensa no que sua linda Magnlia est fazendo com Raymond.
Warren ainda parecia indiferente e Edward continuou, desta vez mais 
expressivo:
- Pense bem na aventura que ser matar rpteis peonhentos e outros 
animais perigosos que vo se avizinhar de nossas tendas. Pense no mau 
tempo e no desconforto que teremos que enfrentar quando estivermos 
acampando. Isso sem dizer o risco que correremos de ver nossa tenda ser 
arrancada pelo vento forte!
- Pelo modo como fala est querendo que eu recuse o convite! Que quadro 
horrvel est pintando!
- No vou prometer-lhe colches de plumas ou os prazeres exticos do 
Oriente, mas pelo menos posso assegurar que ter que lutar e no ter um 
dia sequer de cio. Sinceramente, acho que  do que est precisando no 
momento.
Warren ficou em silncio.
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Depois, como se estivesse vendo Magnlia em sua frente e odiando-a com 
toda a fora de que era capaz, ele disse:
- Est bem. Se deseja minha companhia, irei com voc. Enquanto cuida de 
todos os preparativos para a viagem, eu me tornarei cada vez mais 
inconveniente e, claro, muito bbado!
Recordando aquele dia, Warren ainda parecia v-lo dizendo aquilo. Agora 
desprezava a si prprio por sentir-se to fraco, to idiota a ponto de 
estar sofrendo por uma mulher que no merecia aquela qena. Uma mulher que 
o havia trocado por um ttulo!
E ali estava ele, quase um ano depois, sentindo-se perturbado ao pensar 
em Magnlia e segurando a carta dela. Ele, Warren, que pensava t-la 
esquecido...
Ainda olhando a carta, sentindo a suave fragrncia e vendo as curvas da 
letra elaborada, lembrou-se das curvas daquele corpo bem feito, a cintura 
delicada, os seios que arquejavam quando eles estavam bem juntinhos.
Parecia sentir tambm o calor dos lbios dela que, quando encontravam os 
dele, fazia o corao de ambos bater aceleradamente.
No, ele no se enganara: se ele a desejara como mulher, ela tambm o 
desejara como homem.
- Magnlia! Magnlia!
Seu corpo todo ansiava por ela. Mas, por que, cus, por que aquela carta? 
Por que Magnlia o fazia reviver tantas lembranas semiesquecidas?
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CAPTULO II
Por um momento as palavras escritas sobre o papel azul pareciam danar 
diante dos olhos de Warren. Ento ele leu:
"Querido, amado Warren.
Como pde ser to cruel a ponto de partir sem dizer-me uma palavra que 
fosse? No pude acreditar quando me disseram que havia deixado a 
Inglaterra.
S ento tive conscincia de como havia sido tola! Sim, meu amor, eu s 
podia estar fora de mim ou talvez tivesse tido uma crise momentnea de 
loucura que, sinceramente, nem eu mesma consigo entender. Compreenda 
apenas que fui acometida de uma insanidade temporria!
Agora, voltando a raciocinar claramente, e podendo analisar meus 
sentimentos tive certeza de que o nico homem de minha vida  voc!  s 
voc que eu amo!
 em nome desse amor que lhe dedico que peo, de joelhos se necessrio, 
que me perdoe.
No posso acreditar que, realmente, possa ter perdido algo to precioso 
como o seu amor. Quero penitenciar-me por no haver valorizado um 
sentimento to maravilhoso! Tambm quero que saiba que jamais encontrei 
uma pessoa to adorvel como voc.
Soube por intermdio de seu tio que voc est em algum lugar na frica. 
Como no tenho o endereo, mandarei esta carta para o hotel, em Paris, 
onde sei que se hospedar quando voltar.
Ao ler esta, querido, esquea toda a minha imbecilidade e pense apenas em 
como fomos felizes antes de nossa ida a Buckwood! Permita que eu seja, 
novamente, a dona de seu corao.
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Perdoe-me! Lembre-se da felicidade inexprimvel que ambos sentimos quando 
nos beijamos pela primeira vez. Amo-o! Adoro-o!
Sua humilde e penitente Magnlia. "
Acabando de ler a carta, Warren no podia acreditar que tudo aquilo era 
real.
Olhando a data, viu que a carta havia sido escrita nove meses atrs, ou 
seja, um ms depois de ele haver deixado a Inglaterra.
Pareceu-lhe impossvel que Magnlia pudesse ter mudado de ideia to 
completa e subitamente. Tudo era to incrvel que ele releu a carta.
Warren sentiu que devia haver um motivo muito forte para fazer Magnlia 
mudar de opinio. Todavia, por mais que pensasse, no conseguia nem ao 
menos ter ideia do que fosse.
Ele olhou para a pilha de cartas novamente e, debaixo de uma poro de 
contas e mais de uma dezena de envelopes que pareciam conter convites, 
pois todos tinham o timbre do White's Club, ele encontrou uma carta de 
sua me.
Enquanto olhava para o envelope e analisava a elegante e sbria 
caligrafia da me, pensou em como aquela letra diferia da de Magnlia, 
que era toda rebuscada.
Ele, porm, no queria perder tempo com bobagens. Abriu a carta da me e 
leu:
"Meu querido filho
Fiquei felicssima ao receber, ontem, sua carta, enviada de Casablanca, 
na qual voc comunicava que j estava a caminho de casa.
Eu estava desesperadamente ansiosa para entrar em contato com voc e, 
como resposta s minhas preces, recebi sua carta dizendo que em um futuro 
no muito remoto estar na Inglaterra novamente.
O importante  que, assim que receber esta carta, vai poder vir para casa 
imediatamente.
Sei que as notcias que tenho para lhe dar so muito tristes
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e pesa-me tambm transmiti-las. Raymond sofreu um acidente h trs dias e 
eu soube esta manh que ele acabara de falecer.
Parece que ele se acidentou em uma corrida de obstculos.
Raymond estava com amigos e, segundo dizem, havia comido demais antes da 
corrida e, quem sabe, havia abusado um pouco da bebida.
Agora que nosso pobre Raymond est morto, acabo de saber tambm, pelo dr. 
Gregory, que seu tio Arthur teve um enfarte.
Arthur j no andava bem nestes ltimos meses. Devido ao excesso de peso 
precisou seguir uma dieta rigorosa. A notcia do acidente do filho veio 
abalar ainda mais sua sade. Foi um golpe terrvel para ele, como bem 
pode imaginar.
Depois do enfarte seu tio entrou em coma e o dr. Gregory diz que h 
pouqussimas chances de sobrevivncia.
Voc com certeza j compreendeu, meu querido Warren, que sua presena 
aqui  urgentssima neste momento difcil. S peo a Deus que receba logo 
esta carta. Por favor, telegrafe-me assim que receb-la.
Lamento demais que a alegria de sua volta  ptria e ao lar seja turvada 
por esse clima de tristeza e pelo sentimento de perda irreparvel que 
reina aqui em Buckwood.
Ao mesmo tempo, sei que voc assumir suas responsabilidades e cuidar de 
tudo com o mesmo carinho, dignidade e amor, qualidades que sempre foram 
caractersticas de seu pai e de seu tio.
Espero ansiosamente notcias suas.
Sua afeioada e devotada me que o abenoa, Elizabeth Wood. "
Se Warren ficou surpreso e chocado com a carta de Magnlia, a carta de 
sua me deixou-o consternado.
Era inacreditvel que seu primo Raymond pudesse estar morto! Um jovem to 
alegre e cheio de vida! Tampouco parecia verdade que seu tio estivesse 
nas ltimas.
Foi ento que compreendeu que toda sua vida havia mudado! Se a carta no 
tivesse sido escrita por sua me e se no estivesse ali, bem diante de 
seus olhos, no poderia acreditar que tudo no passava de um pesadelo.
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Ele jamais pensara, nem mesmo em suas mais ousadas fantasias, nem em seus 
sonhos mais loucos, que viria a ser, um dia, o marqus de Buckwood! Da 
mesma forma que seu pai jamais pensara em herdar o ttulo, em vez de o 
irmo,
Warren lembrou-se com carinho do pai. Lorde John no era nada ambicioso, 
tampouco era um homem invejoso. Ele sempre dizia:
- Ningum pode ser melhor chefe de famlia do que o querido mano Arthur.
Antes de morrer o pai pedira a Warren para olhar pela me e ajudar o tio 
no que pudesse, pois sabia que este confiava mais nele do que em Raymond.
Warren prometeu que sempre ajudaria o tio e no deixou de faz-lo.
Agora ele lembrava-se das ltimas palavras que o pai lhe dissera j com 
voz dbil:
- Voc  um timo filho! Sempre me orgulhei de voc! Warren ento pensou 
em quem poderia ajud-lo na difcil
tarefa de ser o chefe da famlia e de assumir todos os encargos dos 
Woods. De repente, sentiu que teria sobre seus ombros uma carga que, alm 
de inesperada, era surpreendentemente pesada.
Ele teria que administrar no somente as casas e manses, as terras, 
fazendas em vrias partes da Inglaterra, mas tambm orfanatos, asilos, 
escolas, instituies de caridade. Ele sabia que a relao das 
propriedades dos Woods e dos encargos sociais e assistenciais enchiam 
trs pginas de papel almao.
Herdando o ttulo de marqus de Buckwood teria tambm seus compromissos 
na corte. O tio era sempre chamado ao castelo de Windsor, pela rainha 
Victoria, que nele confiava e com quem muitas vezes se aconselhava.
Pensando na rainha Victoria, Warren considerou o quanto a admirava e 
reconhecia que a grande expanso, a prosperidade e o prestgio do Imprio 
Britnico deviam-se  presena de Sua Majestade e  maneira como ela 
inspirava a todos os que a serviam.
Warren lembrou-se de que a me precisava dele e olhou
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novamente a carta a fim de certificar-se da data em que fora escrita e
viu que esta era de trs dias atrs.
- Preciso partir para a Inglaterra amanh bem cedo disse para si mesmo.
Em seguida, chamou a portaria para saber o horrio de trens partindo da
Gare du Nord com conexo com os barcos para a travessia do canal da
Mancha. Pediu tambm um formulrio de telegrama para preencher; assim
deixaria a me tranquila sabendo que ele j estava a caminho de casa.
Quando ele voltou a examinar a correspondncia, observou que em todos os
envelopes havia um carimbo do hotel com a data em que a correspondncia
chegara ali. Na carta mandada pela me ele pde ler "27 de junho". 
Rapidamente, pegou o envelope azul da carta de Magnlia que estava cado 
no cho e o olhou de novo. Viu a mesma data "27 de junho", com o carimbo 
do hotel.
Por um instante, ele ficou parado, olhando fixamente para o envelope. No 
podia acreditar no que seus olhos viam. Voltou  carta de Magnlia e viu 
a data escrita muito clara: "20 de outubro de 1893".
Ento compreendeu tudo. Em segundos sua expresso endureceu, as linhas ao 
redor de sua boca se acentuaram e fizeram-no parecer muito mais velho e 
desiludido.
Ele j devia ter esperado uma atitude dessas de uma pessoa como Magnlia. 
Claro! Quando ela viu que Raymond estava morto, tentava reconquistar 
Warren!
O dio que ele sentiu foi to grande que atirou a carta longe. A falta de 
carter de Magnlia fez com que sentisse vontade de mat-la. Foi ento 
at a janela e ficou por uns momentos parado, olhando para a paisagem  
sua frente, porm sem nada ver.
O sol j se escondia no poente e os ltimos raios crepusculares 
pincelavam o cu de tons violceos e purpreos, e mergulhavam os telhados 
das casas na semi-obscuridade, tornando a cena de uma beleza inenarrvel.
Entretanto, o olhar vazio e distante de Warren s via o lindo rosto de 
Magnlia e a imaginava tramando tudo para ver se conseguia, a todo custo, 
ser a marquesa de Buckwood.
Ah, ele queria mat-la!
Como podia a mulher, que ele tanto amara um dia, comportar-se de
maneira to abjeta? Como pde pensar que ele seria to tolo a ponto de
acreditar naquele amontoado de mentiras?
Agora Warren tinha certeza de que, se ainda restava em seu corao algum
vestgio do amor que havia nutrido por Magnlia, esse pouquinho havia
sido extirpado  fora, com a ponta de um punhal.
Se ele pudesse ver Magnlia naquele momento, ainda que ajoelhada a seus 
ps lhe implorando perdo, a nica vontade que sentia era de esmurr-la.
Warren parecia ver a cabecinha ftil de Magnlia trabalhando, urdindo sua 
trama, pensando, ingnua que era, que, perdendo Raymond, o tolo do Warren 
viria correndo prostrar-se aos ps dela.
Ela havia tramado seu plano que lhe parecera muito inteligente: mandaria
a carta com data atrasada, fazendo parecer que havia sido escrita assim
que Warren havia partido. No fosse o cuidado do hotel em datar toda a
correspondncia recebida, ele talvez at se convencesse de que Magnlia
mudara de opinio to logo ele deixara a Inglaterra.
Para no restar dvida alguma de que no estava cometendo nenhum engano
em seus julgamentos, Warren voltou  correspondncia e olhou envelope por
envelope. Viu que em todos havia a data de recebimento cuidadosamente 
marcada pela portaria do hotel.
Ele no havia dado instrues  secretaria do White's Club para mandar 
sua correspondncia para Paris. Edward devia ter feito isso por ele.
A nica pessoa a quem ele prprio dera o endereo para correspondncia 
fora sua me. Como Magnlia poderia ter extrado de sua me o endereo, 
sem que sua me desse por isso, ele no sabia explicar.
Warren teve uma outra ideia e foi novamente remexer nas cartas
esparramadas e achou a que queria. Era uma carta dos advogados de seu
tio, que moravam na cidade prxima a Buckwood. Talvez Magnlia tivesse 
conseguido o endereo daquele
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hotel por meio dos advogados e estes, por sua vez, o teriam conseguido
por intermdio de sua me.
Sim, devia ser isso, pois a carta dos advogados vinha assinada por um dos 
scios da firma que, Warren sabia, era amigo do pai de Magnlia.
Nessa carta os advogados informavam no s a morte de Raymond, mas tambm 
solicitavam a presena de Warren na Inglaterra o quanto antes, para 
cuidar dos assuntos do tio, uma vez que este estava incapacitado de faz-
lo.
Pela carta dos advogados como pela carta de sua me ele teve certeza de 
que no havia mesmo esperana para o marqus e sentia que j pesava sobre 
seus ombros aquele fardo antes mesmo de seu tio falecer.
Cuidadosamente, Warren recolocou a carta no envelope e a ps sobre a 
mesa. Vendo o papel azul da carta de Magnlia bem ali a seus ps, pisou 
nela com fora e com raiva, fazendo-a afundar na maciez do tapete.
A lua imperava no alto do cu e as estrelas brilhavam como diamantes.
Warren andava pela calada que margeava o rio Sena.
Quando ele estava na frica com Edward, ambos sempre conversavam sobre o 
que iriam fazer quando voltassem  civilizao.
- Vamos ficar uns dias em Paris, amigo velho! - dizia Edward. - Acho que 
Paris  a cidade ideal para fazer a ligao entre o mundo primitivo e o 
sofisticado.
Warren lembrava-se do deserto estendendo-se  frente deles, os amplos e 
indolentes horizontes muito ao longe, no se podendo definir onde 
terminava a areia e onde comeava o cu, to idnticos eram em sua 
imensido, claridade e aridez.
- Aposto que est pensando no Moulin Rouge e no Maxim's!
- disse Warren, caoando dele.
- Quando estou fazendo uma viagem como esta - respondeu Edward -, at me 
esqueo de como  o jeito de uma mulher bonita. Ah, como eu adoraria 
estar ao lado de uma das sereias do Maxim's ou de ver as garotas do 
Moulin Rouge agitando suas pernas, danando o canc!
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Warren riu e disse:
- Pois eu adoraria tomar uma taa de champanhe bem gelada! Se tiver que
tomar da gua dessa bolsa de couro de cabra por muito tempo, acho que vou
acabar ficando louco!
- Voc vai ficar louco  se no tiver essa gua - disse Edward, olhando
para o sol escaldante e inclemente acima de suas cabeas.
Ambos j estavam viajando pelo deserto h quase quatro dias e, como 
Warren dizia, a gua da bolsa de couro de cabra estava com um gosto 
horrvel.
- Amanh poderemos nos abastecer - disse Edward. Apesar de a comida no 
ser to boa como a de um restaurante de luxo, vamos ter alguma coisa 
decente. Pelas privaes que est sofrendo no momento, creio que suas 
roupas vo precisar ser apertadas para assentar bem.
Warren riu. Mas quando se vestiu para o jantar naquela noite, viu que 
Edward estava com a razo. As roupas, se ele quisesse que ficassem nas 
suas medidas atuais, precisavam de reforma em um bom alfaiate.
Ao olhar-se no espelho, entretanto, teve a impresso de que seus ombros 
estavam muito mais largos e sentia seus msculos bem mais rijos.
Warren sabia que aquele seu fsico mais atltico era devido s horas sem 
fim sobre o dorso dos camelos ou dos cavalos do deserto. Todavia, a 
comida que tinha diariamente era apenas suficiente para mante-lo vivo.
Apesar de todas as suas preocupaes, naquela noite Warren jantou muito 
bem. Achou excelente a comida do pequeno restaurante perto do hotel.
Ele havia pensado em sair e encontrar-se com uma linda mulher com quem 
passava noites muito agradveis sempre que vinha a Paris. Porm estava 
por demais aborrecido para um programa dessa natureza.
Caminhando vagarosamente, ele se lembrava da ltima noite que havia 
passado em Paris, antes de ele e Edward embarcarem para a frica. Naquela 
noite, ao se preparar para sair, estava to aborrecido que deixou Edward 
escolher o que ele devia vestir.
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Depois do jantar eles logo comearam com Folies Bergres e foram em 
seguida ao Maxim's, mas Warren logo quis sair, sem danar nem mesmo uma 
vez com uma das encantadoras garotas.
Na frica ele sonhava com sua primeira noite em Paris, quando voltasse  
civilizao e, agora que ali estava, queria ficar s, para pensar melhor 
em tudo o que estava acontecendo. Por isso ele havia jantado sozinho e 
resolveu caminhar um pouco antes de voltar ao hotel para dormir.
O gerente do hotel havia reservado para ele passagem no trem expresso, 
cujo horrio coincidia com o vapor que partiria de Calais ao meio-dia. Se 
tivesse sorte, poderia estar na casa de sua me na noite seguinte.
No telegrama que havia mandado  me avisava que deveria chegar s dez da 
noite, mas que no se preocupasse caso houvesse algum atraso.
Felizmente, era vero e no costumava haver atraso na travessia do canal 
pelo vapor, pois geralmente o mar era calmo.
A noite estava calma e quente. No havia a mais leve brisa nem o 
farfalhar das folhas das rvores  margem do Sena.
Warren caminhava vagarosamente debaixo das rvores e pensava que o luar 
que prateava o telhado das casas e os prdios mais altos era muito 
diferente do luar do deserto, que se filtrava pelas palmas flabeladas das 
palmeiras de um osis onde dormiam, quando tinham a sorte de achar algum.
Outras vezes eles erguiam a tenda entre pedras e arbustos e tinham que 
ter muito cuidado com cobras e escorpies. Havia tambm inmeros insetos 
desagradveis que gostavam de se esconder dentro do saco de dormir ou 
embaixo de seus pescoos.
Ouvindo o ritmo compassado dos cascos de cavalo batendo nas ruas bem 
pavimentadas, ele sorria, lembrando-se de como eram diferentes os rudos 
que eles costumavam ouvir no deserto: o ronco dos camelos e a maneira 
grosseira de os criados rabes limparem a garganta antes de escarrarem.
"Voltei  civilizao!", pensou.
Mesmo estando quente, ele sentia como se estivesse envolto
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em sedas macias depois de ter usado roupas de tecido grosseiro por muito 
tempo.
Warren cruzou uma ponte para chegar a Notre Dame. Ficou por uns momentos 
contemplando a catedral banhada pelo luar de prata e vendo a mesma lua, 
l do alto, refletida no Sena, logo abaixo.
Acudiam-lhe agora lembranas de sua juventude, quando viera a Paris pela 
primeira vez. Ele havia ficado hospedado  margem esquerda do Sena, 
porque tudo era mais barato ali.
Ele se lembrava da impresso que tivera ao ver Notre Dame pela primeira 
vez. Como achara a velha catedral to linda e romntica!
Agora ele apoiava os braos sobre as pedras frias da mureta que 
acompanhava o grande rio e observava uma barcaa que passava lentamente, 
descendo a correnteza, com suas luzes vermelhas e verdes refletindo-se na 
gua.
Foi ento que Warren viu algum l embaixo, na pista feita para os 
cavalos puxarem as barcaas ao longo do rio.
Apesar de no estar prestando muita ateno, notou uma figura magra 
andando na beira da gua e olhando fixamente para o rio.
Ela no usava chapu nem mesmo um leno sobre a cabea e o luar matizava-
lhe os cabelos de tons prateados.
Warren passou a observar a moa mais atentamente e notoulhe a graa do 
andar e a cintura muito fina.
Chegando sob a ponte, a moa parou, continuando a fitar o Sena.
Quase inconscientemente, mas com a percepo que tem todo homem que 
conviveu muito tempo com o perigo, Warren de imediato percebeu o que a 
moa ia fazer.
Ela continuou imvel, os olhos presos na gua corrente. Warren achou que 
era chegado o momento de ele intervir.
Sem pensar nas consequncias, sem considerar se deveria ou no se 
envolver, ele caminhou rapidamente para uma das passagens que havia na 
mureta, logo ao lado da ponte, e desceu os degraus que levavam  pista 
onde estava a moa.
Logo estava a poucos metros da jovem. Deu mais uns passos silenciosamente 
e ficou ao lado dela.
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Mergulhada em seus pensamentos, a jovem nem notou a presena de Warren e
ele disse, em francs, com voz calma para no assust-la:
- Senhorita,  muito perigoso ficar assim to perto do Sena. Ele encarou
a moa e viu que ela estava tensa. Recuperando-se da surpresa, ela disse
convulsvamente:
- Suma! V embora... Deixe-me s!
Para surpresa dele, ela falou em ingls e ele respondeu:
- Como pode estar pensando em fazer tal loucura?
 -  da... sua... conta?
- Algum policial poder v-la e estar em apuros. Como ele falava
calmamente, a jovem voltou-se e encarou-o.
Apesar de no v-la bem por causa da sombra da ponte, Warren distinguiu
um rosto plido e um par de olhos enormes.
A moa continuou a olhar para Warren, parecendo surpresa por ele estar 
ali naquele lugar, trajando-se elegantemente.
- V embora! - ela repetiu. - No ... da sua... conta!
- Parece que somos ambos ingleses. Mal posso acreditar que quisesse...
- Por favor... por favor... deixe-me s!
Agora a voz dela nada tinha de agressiva; era antes uma splica. Warren 
quis confort-la e disse:
- Voc diz que no  da minha conta, mas um ingls no deixaria nem mesmo 
um gato ou um co lutando em um rio sem ir socorr-lo. E no estou com a 
mnima vontade de me molhar!
- Ento me deixe morrer... V embora! No se intrometa! As palavras dela 
soaram to desesperadas que o comoveram
ainda mais.
- Ento quer morrer! - ele disse como que refletindo sobre aquelas 
palavras. - Eu tambm queria a mesma coisa h meses atrs, mas um amigo 
evitou que eu fizesse alguma loucura. Agora estou muito feliz por estar 
vivo.
-  muito diferente... voc ... voc  um homem!
- Sou um ser humano. E estou vindo de um lugar onde os seres humanos tm 
que lutar duramente se quiserem sobreviver. Isso me fez apreciar a vida e 
v-la sob um prisma que nunca vira antes.
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A moa virou seu rosto e Warren viu-lhe a silhueta contra o brilho da
gua. Notou que ela era muito atraente, mas muito magra.
- Como j fui uma vez salvo por um amigo, quando pretendia fazer
exatamente o que voc estava querendo fazer agora, sugiro que nos
sentemos em algum lugar para conversar. Podemos tomar um copo de vinho e
voc ento me conta o que a levou a pensar em algo to desesperador.
A reao da jovem foi imediata e ela disse com voz rspida:
- J lhe disse para sumir da minha frente! Se quer uma mulher... h
muitas... nas ruas.
Warren no se aborreceu por ela haver interpretado mal suas palavras e
logo explicou:
- Posso jurar que no pensei que voc fosse esse tipo de mulher! Se eu
tivesse interessado no que acabou de insinuar, no precisava vir at
aqui. H em Paris lugares muito mais interessantes para se encontrar
belas mulheres.
Havia no s sinceridade na voz dele, mas tambm carinho. Parecia que ele
estava falando com muita pacincia com uma criana teimosa ou tola. Ento
a jovem resolveu ser mais cordial.
- Desculpe-me... fui um tanto rude. Afinal, voc est tentando ser...
amvel.
- Acho que no devia estar andando por a, numa cidade como Paris, 
noite e sozinha!
- No estava "andando por a" - ela voltava a ficar zangada. - Vim at
aqui para... me afogar... e voc estragou tudo!
- Volto a insistir no que sugeri h pouco. Voc pode conversar com...
algum que j esteve numa situao parecida uma vez.
- Duvido que j tenha estado numa situao parecida com a minha!
-  verdade. Acho que foi o destino que me trouxe at aqui para evitar
que fizesse o que estava querendo fazer.
- Como soube que... o que eu... pretendia fazer? Apesar de no saber
explicar como pressentira o perigo,
Warren foi sincero.
- Por vezes pressinto o perigo antes de ele acontecer. H
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um ms ou dois eu viajava com um amigo e meu instinto, ou o que quer que
chamem, avisou-me do que ia acontecer e pudemos nos salvar por causa
desse aviso. Hoje, que aconteceu a mesma coisa, espero ter salvado voc.
A moa suspirou e deu as costas para o Sena, dirigindo-se para a escada. 
Parecia ter compreendido que, pelo menos naquela hora, no iria conseguir 
seu intento.
Ambos subiram os degraus para chegarem at a calada. Agora,  luz do 
luar, Warren viu que a moa era muito jovem. Apesar de estar usando um 
penteado que a fazia parecer mais velha, seu rosto era quase o de uma 
criana. Sua altura revelava que ela no era to criana. O que lhe 
emprestava aquele ar infantil era seu corpo delicado e frgil.
Ao ver aquela figura franzina, Warren pensou que ela se assemelhava a 
algumas pessoas que ele vira na frica, to magras de fazer d, pois 
sofriam de desnutrio.
Podia ser esta uma das razes por que ela queria morrer. Mas Warren disse 
apenas:
- Podemos ir a um pequeno restaurante que fica perto daqui. Eu o 
frequentava quando era mais jovem. Se estiver aberto, poderemos comer 
qualquer coisa enquanto conversamos.
- No tenho a menor inteno de lhe contar nada sobre mim. Por isso, acho 
melhor nem aceitar o convite.
- Bem, ento falo eu e voc escuta.
A jovem ficou indecisa por uns instantes como se estivesse achando mais 
aconselhvel fugir dali.
Mais uma vez Warren adivinhou o que ela estava pensando e disse:
- O principal motivo de eu querer conversar com algum  que estou com um 
grande problema. Esse problema no pode ser resolvido em meio ao barulho 
e s risadas que h do outro lado do rio, onde a vida noturna  intensa. 
Era por isso que eu estava andando desse lado do Sena. Talvez voc seja a 
pessoa certa para me ajudar.  isso! Voc vai ser minha estrela-guia.
- No parece que tem problema algum! - a mocinha observou.
Ele sabia que ela havia ficado impressionada pela elegncia de sua roupa: 
a camisa branca de peito engomado e a casaca.
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Agora ambos iam seguindo pela rua iluminada pela luz difusa dos lampies 
de gs e Warren disse:
- Voc ficaria surpresa se soubesse quantos problemas tenho tido em minha 
vida! E ainda h muitos para enfrentar. Por favor, venha comigo e, depois 
que terminarmos nossa conversa, posso acompanh-la at sua casa ou at 
onde voc est hospedada.
A garota pareceu estremecer ou ficar embaraada. Parecia que ele havia 
dito qualquer coisa que a fizesse lembrar-se de algo desagradvel.
Ento os dois atravessaram a rua e andaram um pouco mais. Antes de 
chegarem a uma esquina, Warren reconheceu o restaurante.
O restaurante estava aberto, mas as mesas que ficavam na calada, sob um
toldo listrado de branco e vermelho, estavam todas vazias. No interior
do restaurante havia apenas uma meia dzia de pessoas sentadas junto s
mesas que havia no centro do salo. As das laterais, onde havia sofs
encostados na parede, estavam vazias.
O proprietrio, vendo Warren vestido to elegantemente, apressou-se em 
atend-lo e conduziu-o para uma das mesas com sof, que ficava em um 
canto.
Ao sentar-se, Warren notou que a garota estava  vontade. No parecia 
embaraada por no estar vestida como as demais pessoas, nem por no usar 
complementos como chapu, xale e luvas.
Analisando-a melhor, ele viu que ela usava um vestido j bastante gasto. 
O pescoo da jovem era longo como o de um cisne e, pensou ele, se ela no 
fosse to magrinha seria muito atraente.
Ela nem ao menos fez meno de olhar o menu que o proprietrio havia 
posto em sua frente. Deixou a escolha a cargo do cavalheiro.
- Posso pedir o jantar? - ele perguntou. - Sim. Obrigada.
Olhando-a discretamente, para no parecer curioso demais, Warren teve 
certeza de que ela passava mesmo fome e que estava com inanio.
Foi notando os ossos salientes do pulso, os dedos fininhos, o queixo 
pontudo.
Os olhos dela eram grandes, bem maiores do que o normal. Na verdade ela 
era bem bonita e ele achou que a palavra melhor para descrev-la era 
"adorvel".
Primeiro ele pediu Vichyssoise, uma sopa fria muito nutritiva, feita com 
batata e creme de leite. Para depois da sopa pediu galinha, que o 
proprietrio disse ser a especialidade da casa.
- Lembro-me de j ter experimentado esse prato h anos atrs, quando 
costumava frequentar este restaurante - disse Warren ao proprietrio.
- Nesse caso, muito me alegra que tenha voltado  nossa casa, monsieur - 
ele respondeu -, seja bem-vindo!
Warren pediu uma garrafa de champanhe que foi servido imediatamente.
Depois que o proprietrio afastou-se, Warren disse:
- Que tal se nos apresentssemos? Sou Warren Wood. Houve uma pequena 
pausa, antes de ela responder.
- Meu nome  Ndia.
- S Ndia?
- Charrington.
- Ento voc  inglesa!
Mesmo falando com toda a segurana, novamente ele teve a intuio de que 
ela, apesar de ter um ingls perfeito, no parecia inglesa. Seu tipo 
fsico no era o de uma inglesa. Ele estava certo de que havia em seu 
sangue a mistura de outra raa. Todavia, querendo parecer o mais casual 
possvel, disse:
- Agora que j nos apresentamos, que tal me contar o que est fazendo em 
Paris? Ou... por que est to ansiosa para deixar Paris?
Como Warren falava em tom de brincadeira, Ndia deu um discreto sorriso 
ao responder:
- Prometeu-me que iramos conversar... sobre voc!
- Muito bem, manterei minha palavra, o que, alis, sempre fiz.
Ele sabia que dizendo aquilo ela iria entender que ele no tinha segundas 
intenes e que ela poderia ir embora quando quisesse.
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- Cheguei hoje a Paris. Estou voltando da frica. Partirei amanh cedo 
para a Inglaterra.
- Estava na frica? O que esteve fazendo l?
- Estava viajando com um amigo que est escrevendo um livro sobre as 
tribos do norte da frica, particularmente os berberes. Estivemos em 
lugares onde jamais homem branco algum havia chegado. Quase deixamos 
nossos ossos por l.
- Foi to perigoso assim?
- Foi! Ao mesmo tempo, como j lhe disse antes, isso curou a vontade que 
eu tinha de acabar com minha vida.
Warren notou que Ndia olhava particularmente para as roupas dele 
enquanto ele falava e, com certeza, estava imaginando o quanto eram 
caras.
Depois de um segundo ela disse:
- Voc no tem aparncia de uma pessoa que j quis... acabar com a 
prpria vida.
- H muitas razes, alm da falta de dinheiro, que levam uma pessoa a 
cometer suicdio!
- Sim. Acho que sim, Porm, estar s... e sem um centavo...  aterrador!
O tom com que ela disse "s" fez com que Warren perguntasse:
- Quem voc perdeu? - Minha... me.
- E no tem pai?
- Meu pai est... morto - a voz dela estava muito trmula.
- E voc no tem outros parentes?
- No aqui... em Paris.
Estava mais do que evidente que ela no tinha dinheiro para ir a lugar 
algum e ele disse:
- Parece impossvel que uma pessoa possa estar completamente s, sem 
parentes, sem amigos ou conhecidos em uma cidade superpopulosa como 
Paris.
Ela virou o rosto, evitando o olhar dele e no respondeu. Warren pde 
notar que os clios dela eram muito longos e escuros.
Depois de um momento ele disse suavemente:
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- Parece que fui enviado pelos cus para ser seu "anjo protetor" e para 
salv-la.
- Nunca deveria ter-me... salvo!
- Por que no? Ela suspirou.
- Porque  somente... prolongar a... agonia.
No houve tempo de Warren responder porque o proprietrio do restaurante 
chegou com a sopa. Ele trouxe tambm pezinhos acabados de sair do forno 
e uma grande poro de manteiga.
Foi ento que Warren certificou-se de que Ndia estava faminta. No que 
ela tivesse se apressado para servir-se, mas porque ela esperou 
deliberadamente, porm se controlando, contando os segundos para pegar um 
dos pes quentinhos.
Depois, vagarosamente, to vagarosamente, a ponto de ele perceber o 
esforo que ela fazia para mostrar que tinha boas maneiras, ela partiu o 
po, serviu-se de um pouco de manteiga e foi levando cada pedacinho  
boca, sempre de maneira muito lenta e delicada.
Warren fingiu no estar notando nada.
Ele experimentou um pouco do champanhe e depois ofereceu um pouco a 
Ndia, serviu-a e ps a garrafa de volta ao balde com gelo.
Ele pediu tambm uma garrafa de gua mineral.
Ndia comeou a tomar sua sopa com a mesma delicadeza, os movimentos 
lentos e suaves.
Talvez fosse sua imaginao, mas Warren notou que aos poucos o rosto 
mortalmente plido de Ndia ganhava um pouco mais de colorido.
No conversaram enquanto tomavam a sopa. Quando Ndia tomou um pouco de 
gua mineral de Evian, Warren lhe disse:
- Tome um pouco de champanhe. Vai lhe dar apetite.
- Voc acha que preciso de estimulantes para ter... apetite?
- Sei, por experincia prpria, que quando ficamos muito tempo sem nos 
alimentarmos, sentimos que estamos famintos e quando temos o alimento  
nossa frente, nos surpreendemos e, de repente, perdemos a vontade de 
comer.
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- Tambm experimentou isso na frica?
- Sim. E muitas outras coisas.
- Gostaria que me contasse sobre elas.
- Est mesmo interessada ou apenas fingindo? Pela primeira vez ela 
sorriu.
- Estou realmente interessada. Entretanto, devo admitir que j faz muito 
tempo que no penso em outra coisa a no ser em meus problemas.
- Quando foi que sua me morreu?
Ela ficou calada e pensativa. Warren pensou que ela no fosse responder, 
porm depois de uns segundos ela disse:
- H dois dias. Ela foi enterrada... esta manh. Depois, como se ela 
mesma achasse que ele quisesse saber,
continuou:
- Vendi a aliana de mame, suas roupas e tudo que eu possua para pagar 
o enterro. Mesmo assim o padre me ajudou com dinheiro do fundo de 
caridade.
Ela disse a palavra "caridade" como se fosse um insulto ou uma vergonha e 
Warren disse:
- Compreendo. Voc est sem nada. Mas tem onde ficar, pelo menos?
- Devemos... falar sobre... isso?
-  por isso que estamos aqui.
- Muito bem... voc deve saber a verdade. No tenho nada. Nem onde ficar 
esta noite. Como pode ver, em tais circunstncias, o rio parece bastante 
convidativo.
- Se voc terminar l, e no em uma priso sem conforto. Ela olhou-o com 
firmeza antes de responder:
- Voc parece determinado a evitar que eu me afogue mesmo, no? Mas todos 
os dias so descobertos corpos no Sena e ningum impediu tais pessoas de 
se afogarem.
- Somos felizes... ou infelizes... depende do ponto de vista.
- Infeliz? Claro que sou uma infeliz!
Novamente a conversa foi interrompida, desta vez com a chegada do prato 
principal.
Estava deliciosa! Era um prato feito com galinha e molho cremoso; 
acompanhava-o legumes e batatas sauts.
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Como ele esperava, Ndia comeu pouco, apesar de tomar vrios goles do seu 
champanhe. Terminando, ela ps o garfo e a faca sobre o prato, olhou 
pesarosa para Warren e disse:
- Desculpe-me. Voc foi to amvel, mas -estava certo... no consigo 
comer mais.
Um garom levou os pratos e Warren pediu caf.
- Ndia, talvez voc queira contar-me porque est em tal situao.  
bvio que  muito educada e poderia dizer mesmo que voc  uma lady.
Ndia ficou to surpresa e tensa que respondeu, evitando o olhar de 
Warren:
- No quero ser rude... mas... no posso responder a essa pergunta.
- E por que no? Gostaria de compreend-la melhor. Ndia juntou as mos e 
apertava-as nervosamente, demonstrando como lhe era doloroso tocar no 
assunto.
-  uma histria que no posso contar a ningum. Mame e eu viemos para 
Paris para... para... Precisvamos nos esconder. O dinheiro que minha me 
possua foi se acabando gradativamente... Ento... mame ficou doente.
- E gastou o restante do dinheiro com mdicos! Ndia assentiu com a 
cabea.
- Mas os mdicos no nos davam esperanas. Mame no podia ter 
alimentao adequada... nem ter muita ateno. Ela sentia muitas dores. 
Foi, talvez, at bom que ela... morresse. Quero dizer, bom para ela.
- Compreendo - disse Warren solidrio. - No h nada pior do que ver 
algum sofrendo e no podermos fazer nada por essa pessoa.
Ele estava pensando em seu pai e compreendia como deveria ser apavorante 
para uma jovem passar por tal sofrimento e sendo, sem dvida, bem-
nascida.
- Gostaria que me contasse toda a histria. Ela fez que no com a cabea.
- No posso mesmo fazer isso. S posso dizer-lhe muito obrigada pelo 
delicioso jantar!
Ela ficou olhando para ele, como se esperasse que ele se levantasse e 
fosse embora. Warren disse:
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- Voc no est pensando que eu possa ir embora deixando-a aqui! Mesmo 
que lhe desse dinheiro para ter onde ficar e o que comer, no conseguiria 
dormir em paz, imaginando o que teria acontecido com voc. Todos ns 
somos assim. Sempre queremos saber o fim de uma histria.
- Talvez esta no tenha fim.
- Tolice! Voc sabe que no  verdade! Um captulo acaba, mas o seguinte 
talvez seja muito mais agradvel do que o anterior.
Os olhos de Ndia pareciam encher-lhe todo o rosto.
- Que hei de fazer, meu Deus?
Era um grito, uma splica de criana assustada que procura aconchego, com 
medo da escurido. Warren respondeu:
- Tenho uma ideia que me ocorreu, subitamente, como se algum a 
sussurrasse ao meu ouvido; mas, tenho at receio de exp-la.
- No precisa ter receio... nem dizer nada, se no quiser.
- Muito bem, vou tentar explicar. Pode at parecer um absurdo, mas est 
aqui em minha mente e  como as peas de um quebra-cabea.
- Estou ficando curiosa.
Warren notou, todavia, que o olhar dela revelava uma jovem cautelosa, 
temendo que a sugesto ou proposio que ele ia fazer no a agradasse.
Quase como se lhe pudesse ler os pensamentos e vendo Ndia olhar para a 
porta, parecendo medir a distncia do sof at l, Warren percebeu que 
Ndia queria fugir dali, chegar at a rua e correr antes que ele pudesse 
alcan-la novamente. Ento ele disse com calma:
- No  nada do que est pensando.
O ar atento e de cautela que havia no rosto de Ndia transformou-se numa 
expresso de espanto, pois ele parecia ter lido os pensamentos dela.
O rubor que subiu-lhe s faces a fez parecer surpreendentemente adorvel!
A-i

CAPITULO III

Escolhendo as palavras com cuidado, Warren disse novamente:
- Cheguei hoje a Paris, vindo da frica, onde fiquei durante quase dez 
meses. Durante todo esse tempo no tive cartas da Inglaterra nem li um 
jornal ingls sequer.
Ndia ouvia atentamente e ele continuou:
- A razo por que fui para a frica foi que uma mulher, de quem estava 
noivo, mudou de ideia e desmanchou nosso compromisso por causa de outro 
homem. Esse outro homem era mais importante que eu, socialmente falando, 
e muito mais rico. Ela achava que um ttulo era mais importante que o 
amor.
Warren tentava falar num tom calmo e casual, mas ao se lembrar de 
Magnlia, que o recusara por causa de Raymond, ao pensar na decepo que 
tivera e na raiva que passara, sua voz, assim como a expresso em seu 
rosto se alteraram.
- Esta noite, quando eu estava andando ao lado do Sena
- prosseguiu ele -, estava pensando em como poderia evitar que a mulher 
de quem lhe falei h pouco no viesse fazer cenas, nem voltasse a me 
procurar fingindo que me amava. Sinceramente no suporto algum que falte 
com a verdade.
Novamente as palavras saam dos seus lbios com uma nota de revolta e 
desiluso. Ele terminou, dizendo:
- Agora no tenho mais vontade de me matar, entretanto, acharia muito 
fcil cometer homicdio!
Se a inteno dele foi espantar Ndia, certamente teve sucesso. Ele viu 
os olhos dela arregalarem-se, e viu-a torcer as mos como se ela prpria 
fosse atingida pela violncia daquelas palavras.
Entretanto, lembrando-se da juventude e fragilidade dela, Warren disse em 
tom mais suave:
- Perdoe-me, eu no devia falar assim, mas queria que me compreendesse e 
que me ajudasse.
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- Gostaria de ajud-lo, mas... no sei como poderia...
- Quando eu estava andando junto ao Sena, meus pensamentos eram de 
vingana: pensava em como poderia ferir algum que me fizera sofrer to 
intensamente! Como voc eu quis desistir de viver. Vieram-me  mente 
dezenas de ideias e uma delas era a de encontrar uma atriz para voltar  
Inglaterra comigo.
Ndia o olhava confusa. No sabia onde ele queria chegar.
- Por que teve essa ideia?
- Eu pensei em demonstrar  mulher sobre a qual estou falando que no 
estava mais interessado nela. Queria voltar para casa com uma mulher que 
se fizesse passar por minha esposa... ou noiva.
Agora Ndia pde entender tudo e, por isso mesmo, ficou tensa e parada, 
olhando para ele. Todavia, resolveu perguntar:
- E... tem mesmo inteno de encontrar essa atriz?
- Foi apenas uma ideia meio maluca, pois embarco amanh para a 
Inglaterra. Minha me est  minha espera.
- E ento... que vai fazer? - Ndia disse com voz quase inaudvel.
- Como ia dizendo, parece que o destino a ps em meu caminho e em minha 
vida no exato momento em que eu precisava de algum. Devo dizer que 
nossos anjos da guarda deram uma mozinha e vo tornar as coisas mais 
fceis para ns dois.
- No consigo entender...
- O que estou querendo dizer  que voc deve voltar comigo para a 
Inglaterra, fazendo-se passar por minha noiva. Voc pode ter um nome 
fictcio, assim no ter embaraos. Inventaremos um nome e at um ttulo 
para voc. Assim minha vingana ser maior.
Essas ltimas palavras saram com mpeto. Vendo que Ndia estava 
assustada, prendendo a respirao, ele disse mais controlado:
- S vou pedir-lhe que represente esse papel por pouco tempo. Depois 
anunciaremos que rompemos o noivado. Eu lhe pagarei uma boa quantia em 
dinheiro para poder viver bem durante um longo tempo. Prometo tambm que 
vou tentar encontrar os Charrington, seus parentes, que podero cuidar de 
voc.
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Terminando de explicar seu plano, olhou para Ndia esperando que ela se
manifestasse. A pobre mocinha, porm, estava com o olhar fixo nele como
se no pudesse acreditar que estava realmente ouvindo aquilo tudo. 
Depois, como se estivesse certa de que tudo era apenas fantasia, ela 
disse:
- Eu... s posso achar que est brincando comigo... no est?
- Nunca falei to seriamente.
- Mas que plano mais... absurdo! Como poderei fazer uma coisa dessas?
- E por que no?
- Voc acabou de me conhecer... no sabe nada a meu respeito!
- Isso no quer dizer nada. O importante  que ningum na Inglaterra a 
conhece. Todos vo acreditar piamente no que eu disser a seu respeito.
- Mas... posso cometer erros! com certeza irei desapont-lo!
- Acredito que no far nada errado. Sendo uma estrangeira qualquer 
deslize, socialmente falando, ser considerado natural. No se exige de 
estrangeiros o conhecimento de todo o protocolo da vida social da 
Inglaterra.
Ndia olhou para Warren e, para surpresa dele, deu, de repente, uma 
risada.
- No posso acreditar que tudo isso seja verdade! Meu Deus, devo estar
sonhando, ou talvez esteja, por engano, representando uma comdia muito 
estranha.
- No diria uma comdia, mas um drama que pode facilmente transformar-se 
em uma tragdia.
Warren franziu as sobrancelhas ao lembrar-se de como ele estava 
desesperado naquele dia no clube quando Edward viera ter com ele; pensava 
em como as feridas causadas pela volubilidade e traio de Magnlia 
haviam custado a cicatrizar. Como sofrera durante os primeiros meses 
passados na frica!
S quando as dificuldades, os problemas e desconfortes do deserto 
ocuparam sua mente, quase que exclusivamente, foi que a lembrana de 
Magnlia parou de assombr-lo.
Ele sabia, entretanto, que o sofrimento que Magnlia lhe
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impusera  deixara cicatrizes profundas que permaneceriam em sua alma e em
seu corao pelo resto de sua vida.
Enquanto ele pensava, Ndia tambm estava fazendo suas conjecturas e 
pesando tudo o que Warren lhe propusera. Ela disse:
- Suponha que voc veja essa mulher novamente e... descubra que ainda 
est... muito apaixonado por ela e que pode perdo-la...
- Isso nunca!
Ao falar, ele sentiu nova onda de dio invadi-lo e bateu o punho cerrado 
sobre a mesa, fazendo os copos saltarem.
- Nunca! Isso jamais acontecer! - ele repetiu. - vou deixar bem claro, 
Ndia: o amor acabou para mim e, se eu me casar, algum dia, por desejar 
ter um herdeiro, h de ser um casamento por convenincia. H muitos 
casamentos assim aqui na Frana e muitos deles parecem ter dado certo.
Havia uma expresso de cinismo no rosto dele que se intensificou ainda 
mais quando ele acrescentou:
- Gato escaldado tem medo de gua fria!, diz o ditado. Jamais deixarei 
que me humilhem novamente!
- Posso compreender o que est sentindo. Ao mesmo tempo, embora voc 
ainda no perceba isso no momento, foi muito melhor ter tido essa 
decepo agora do que mais tarde... quando ela j fosse sua esposa.
Warren achou que Ndia tinha razo. Imaginou-se, ento, j casado com 
Magnlia e dando-se conta, depois, que ela ansiava por Raymond. 
Sinceramente, no podia prever qual seria sua reao.
Outra possibilidade que ele tambm considerou foi que Magnlia se 
tornaria infeliz por viver longe de Buckwood e tambm por no ser uma 
marquesa.
Sim, seria muito doloroso, seria mesmo uma agonia lenta descobrir a 
verdade. Ndia tinha razo. O golpe que sofrera, apesar de ter sido 
doloroso, no se comparava ao que iria sentir depois, se viesse a se 
casar com Magnlia e descobrir seu verdadeiro carter. Ficaria 
simplesmente arrasado. Como se no suportasse nem o simples pensamento do 
que poderia ter acontecido, Warren disse subitamente:
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- Vamos nos preocupar com a situao como ela realmente . No faamos 
conjecturas. Ento, vai ajudar-me?
- Acha mesmo que eu seria capaz?
- Posso ser franco? Voc  uma lady. Mesmo sem me dizer, sei que teve
uma boa educao. Se estivesse bem alimentada e bem-vestida seria
lindssima!
A garota magrinha e plida, que antes parecia infeliz e fora da 
realidade, agora era uma mocinha como as outras que corava ao acabar de 
receber um elogio. Ndia deu um sorriso e em seguida exclamou:
- Voc disse "bem-vestida!" Mas eu no tenho nada! Vendi tudo que 
possua. At meus sapatos!
- Nesse caso temos que agir muito depressa!
Ele tirou seu relgio de ouro do bolso, viu as horas e disse:
- So onze e meia.
Warren fez sinal para o proprietrio do restaurante que logo entendeu que 
ele pedia a conta. Depois de Warren pag-la e deixar uma boa gorjeta, 
ambos se ergueram e saram do restaurante.
- Primeiro precisamos arranjar uma carruagem; no caminho eu lhe digo para 
onde vamos.
Pela expresso de Ndia, Warren sabia que ela ainda estava indecisa. 
Talvez estivesse considerando ir com ele nessa espcie de aventura ou 
ficar  merc da prpria sorte. Sempre teria a alternativa de se atirar 
no Sena.
Ento, como se alguma fora vinda do seu interior, ou de sua prpria 
juventude, ou de um fio de esperana, ela preferiu a vida  morte.
com um sorriso levemente encabulado, revelador de seu propsito firme de 
seguir aquele homem quase desconhecido para ela, ela deixou que ele lhe 
segurasse levemente no brao.
J na rua, encaminharam-se para a calada que acompanhava as margens do 
Sena e tomaram uma carruagem de aluguel que vinha na direo deles. 
Warren ordenou:
- Leve-nos para o mercado da Rue de Rivoli, que ainda deve estar aberto.
- Oui, monsieur! - exclamou o cocheiro, parecendo impressionado pela 
aparncia elegante e distinta de Warren.
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- Por que vamos at o mercado? - perguntou Ndia,
- Porque  o nico lugar que est aberto a esta hora da noite. Quero 
comprar algumas coisas para voc usar. Uma capa, um chapu pelo menos. 
Depois vou lev-la para meu hotel.
Ndia apenas olhava para ele, curiosa. Warren continuou:
- Tambm vou ver com a esposa do gerente do hotel onde se pode comprar 
alguns vestidos para voc levar para a Inglaterra. L em meu pas minha 
me pode sair com voc e ento voc comprar o que quiser. Voc sabe... 
para repor as roupas que teve de vender.
- Sua me vai acreditar... em sua histria, depois de ver que sou... to 
pobre?
-  mais certo que vai. Alm disso, tenho aqui em minha cabea uma 
histria muito convincente. Porm, primeiro, temos que convencer madame 
Blanc, esposa do gerente do hotel. Ela  muito curiosa.
Ambos ficaram em silncio e logo depois de atravessarem a ponte sobre o 
Sena chegaram  Rue de Rivoli.
No fim dessa rua que se unia  Place de Ia Concorde as lojas elegantes, 
quela hora, estavam, claro, todas fechadas. Entretanto, alm do Louvre 
ele sabia de algumas lojas mais barateiras que ficavam abertas at bem 
tarde.
Havia tambm um mercado onde as pessoas podiam comprar no s alimento, 
mas vrios outros artigos, s vezes at estranhos ou originais, 
considerados pelos franceses verdadeiras pechinchas.
Quando a carruagem parou, Warren desceu, ajudou Ndia a descer e pediu 
para o cocheiro esperar por eles.
Em segundos desapareceram entre as pessoas que circulavam por ali. Eram 
homens e mulheres mais simples que voltavam dos teatros ou restaurantes; 
havia tambm alguns maltrapilhos que mais pareciam batedores de carteiras 
do que mendigos.
Warren ia guiando Ndia por entre a multido que parecia muito bem-
humorada, pois a maioria contava piadas e ria alto. Logo ele avistou a 
loja que queria e felizmente viu que estava aberta.
As vitrinas exibiam trajes muito vistosos e algumas roupas intimas mais 
sedutoras, porm um tanto vulgares. Dentro da
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loja havia um longo suporte com vrios cabides onde estavam dependurados 
casacos longos que as parisienses usavam sobre seus vestidos de noite.
Warren pegou um deles mas, achando-o vistoso demais, deixou-o de lado. Em 
seguida achou um outro azul-escuro que ps sobre os ombros de Ndia para 
ver se assentava bem.
Era um casaco bem comprido que chegava quase at o cho, podendo assim 
esconder o vestido gasto de Ndia. Warren achou que estava perfeito para 
ela.
- Agora precisa escolher o chapu - disse ele. Os dois foram ento para a 
seo onde havia os mais variados tipos de chapu: de palha, veludo,
alguns enfeitados com plumas, outros com flores, espalhafatosos ou 
discretos, num amontoado de cores, ao lado de um balco.
Ndia hesitou. Depois, com o que Warren considerou timo gosto, escolheu 
um chapu simples, porm com o toque de Paris, indiscutivelmente chique. 
Era feito em feltro, com certeza uma sobra da coleo de inverno, mas era 
pequeno e enfeitado apenas com uma pluma preta, presa dentro da fita que
circundava a copa do chapu.
Ela colocou o chapu na cabea e olhou para Warren como para pedir sua 
aprovao.
- Excelente! - ele exclamou.
Warren pagou a uma mulher indiferente, parecendo cansada, que estava s 
olhando para o relgio, no vendo a hora de fechar a loja.
Saindo dali ambos foram at a carruagem. Warren deu o endereo do hotel 
ao cocheiro e, dentro de segundos, subiam a Rue de Rivoli. Durante o 
trajeto Warren disse:
- Agora estou interessado em saber se  boa atriz.
- Falando desse jeito me deixa... assustada.
- Voc, certamente, no precisa ter medo de madame Blanc, embora eu mesmo 
devo admitir que no passado a achava um pouco intimidante!
Ndia viu que ele estava apenas brincando e que ria dela por estar to 
encabulada.
- Por favor, ento diga-me rapidamente o que devo fazer.
- Bem, esta parte da histria  um pouco complicada. Quando
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sa do hotel disse ao gerente que a primeira coisa que iria fazer
amanh, logo cedo, era partir para a Inglaterra. Ele tomou todas as
providncias para mim. E eis que agora apareo no hotel com uma linda 
garota! Sei que os franceses s tm uma explicao para isso!
Sem esperar pela resposta de Ndia, ele apenas mudou de tom e continuou:
- Eu devia ter-lhe perguntado isso antes, mas, que lngua voc fala alm 
de ingls e francs?
Pela hesitao de Ndia ele viu que ela estava pensando em uma resposta 
que no a comprometesse. com sua intuio ele sabia que ela mantinha um 
segredo e no queria a intruso de quem quer que fosse. Ele mesmo 
estranhava o quanto era perceptivo sobre ela.
com voz insegura ela disse:
- Sei falar... hngaro.
- timo! Era exatamente o que esperava! Isto , no exatamente hngaro, 
mas uma lngua dos pases blticos que, lamentavelmente, poucas pessoas 
conhecem.
Warren sorriu para Ndia na penumbra da carruagem que seguia veloz. 
Exclamou ento:
- Isso vem mesmo a calhar! Conforme os meus planos, no vai nem precisar 
mudar sua identidade.
- Para mim tudo isso parece uma cena de romance...
- que ns dois tornamos realidade!
- Muito bem: sou uma hngara.
- Diga-me um nome hngaro.
- Ferrais ou Kaunitz!
- Ferrais est timo. E seu pai  um nobre riqussimo. Ndia no tirava o 
ar de espanto dos enormes olhos escuros.
- Como seu pai  um homem de grande fortuna - continuou Warren -, voc 
foi raptada quando viajava para Paris e ficou aprisionada at seu pai 
pagar aos raptores uma quantia considervel para resgat-la.
Warren dizia cada palavra como se estivesse vendo a cena  sua frente.
- Os homens que raptaram-na eram reconhecidamente desapiedados e quase 
deixaram-na morrer de fome, tiraram todas
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as suas roupas e jias, alm de exigir uma enorme soma de seu pai, caso 
contrrio a matariam.
- Tudo isso  horrvel! - disse Ndia, com um leve sorriso em seus 
lbios. - Que imaginao frtil!
- Ento, hoje - ele prosseguiu -, eu descobri entre as minhas cartas uma 
comunicao annima dizendo onde poderia encontr-la. Como seus raptores 
no esperavam que algum tentasse ir salv-la, pude peg-los de surpresa 
e livr-la deles.
Ndia apertava as mos:
- Parece um daqueles romances que minha me nem me deixava ler.
- Agora no vai ler, mas vai deixar todos convencidos de que esta sua 
histria  real.
- Quer dizer que devo deix-la convincente para madame Blanc?
- Exatamente. Voc depende dela para lhe arranjar as roupas necessrias 
para embarcar para a Inglaterra. Voc precisa estar bastante atraente, 
mesmo parecendo haver passado privaes nas mos de seus raptores.
- Voc pensa que vo mesmo... acreditar em ns?
- Depende de como voc representar seu papel.
Horas depois, quando Warren se recolheu, ficou por uns minutos  janela, 
admirando a vista que estava ainda mais bonita  luz do luar.
Havia um sorriso de satisfao em seus lbios e ele lembrava-se de que 
horas antes, quando olhara a mesma cena  luz crepuscular, seus 
sentimentos eram bem diferentes.
Satisfeito, ele recordava o que se passara no escritrio do gerente uma 
hora atrs. Tanto madame quanto monsieur Blanc ouviram com ateno toda a 
histria sobre Ndia e compreenderam, at penalizados, que ele jamais 
poderia abandonar Ndia na Frana, nem mesmo na Inglaterra.
Ndia representara seu papel admiravelmente. Parecia mesmo uma pobre 
mocinha que sofrera os horrores de um sequestro.
Para ser mais convincente, Ndia pouco falava, apenas demonstrava seu ar 
de sofrimento e dizia algumas palavras sobre como tinham sido terrveis 
os dias de cativeiro. Os imensos
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olhos e o rosto magro dela eram to patticos que madame Blanc ficou 
consternada, o corao apertado.
- Sei que compreende, madame - dizia Warren -, que no podia trazer minha 
prima para o hotel s com esse vestido gasto. Ento passamos pelo mercado 
da Rue de Rivoli e comprei esta capa e o chapu, mas ela precisa de 
algumas roupas melhores para viajar para a Inglaterra.
- Claro, monsieur, posso comprar algumas roupas facilmente! - assegurou
madame Blanc. - Porm, isso s poder ser feito quando as lojas se
abrirem. Pode estar certo de que mademoiselle a condessa ter o melhor!
- Sim. O melhor! Tudo de mais fino! - concordou Warren.
- Dinheiro no ser problema.
Warren no pde evitar e pensou na fortuna imensa que herdaria quando 
ocupasse o lugar do tio. Pela primeira vez em sua vida, no precisava se 
preocupar com o custo de coisa alguma.
Ele deixou bem claro que o dinheiro que ele gastasse com as roupas da 
prima seria reembolsado pelo tio. Insistiu em que deveriam ser vestidos e 
acessrios da melhor qualidade.
- Minha prima costumava usar roupas que faziam inveja a todas as suas 
amigas - ele disse com um sorriso -, portanto, madame, conto com a 
senhora para substituir o que foi roubado da condessa.
- Claro, monsieur! - disse madame Blanc consciente de sua 
responsabilidade.
Depois, ela olhou para o marido e perguntou:
- Quanto tempo tenho para fazer tudo isso, Etienne, antes da partida de 
monsieur?
Quando madame Blanc soube que Warren queria partir pela manh, viu que 
era impossvel ter tudo pronto to cedo. Depois de muito discutirem, 
Warren concordou em tomar o ltimo trem que tivesse conexo com o barco 
de Calais para Dover. Isso significaria que chegariam  Inglaterra bem 
mais tarde, mas era o nico modo de providenciar o que fosse preciso para 
Ndia.
Naturalmente no tinha inteno de contar  me nem a qualquer pessoa em 
seu pas a histria do sequestro.
Aquela fora uma histria de emergncia para convencer apenas o casal 
Blanc. Na Inglaterra, ele diria que conhecera Ndia
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a caminho da frica e que se haviam apaixonado. Ela havia esperado sua 
volta a Paris e agora iriam anunciar oficialmente seu noivado para a 
famlia e amigos.
Warren considerou a histria plausvel. No podia negar que ele estava 
gostando demais daquela trama toda inventada por ele e na qual Ndia 
desempenhava um papel importantssimo.
Toda a conversa e os acertos para o que devia ser feito tomou bastante 
tempo e Warren notou que Ndia estava muito cansada, pois j era bem 
tarde.
com seus modos encantadores, Warren disse a madame Blanc:
- Tenho certeza de que a senhora mesma cuidar de minha prima e a deixar
muito bem acomodada. Peo-lhe tambm que faa companhia a ela. Assim que
chegarmos  Inglaterra, Ndia ficar aos cuidados de minha me. Mame 
ficar horrorizada com tudo o que aconteceu com a sobrinha.
- Pode ficar tranquilo, monsieur. A condessa poder ocupar o quarto de 
minha filha, ao lado do meu, pois minha garota est passando uns dias em 
casa de amigos.
- Fico-lhe muito agradecido, madame.
Madame Blanc, toda agitada, levou Ndia para cima, deu-lhe uma bebida 
quente para que dormisse mais depressa e ajudou-a a se despir.
Ela no pde evitar uma exclamao de horror ao ver a condio em que
estava o vestido que os sequestradores deram-lhe para vestir!
Madame Blanc prometeu  condessa que ela teria os mais lindos vestidos 
que se pudesse encontrar em Paris, alm de capas, chapus, luvas, 
sapatos, enfim tudo que fosse mais fino e que estivesse na ltima moda 
nas melhores lojas parisienses.
- A primeira coisa que vou fazer logo cedo - disse madame Blanc com sua 
voz prtica e resoluta -,  sair sem a sua companhia, mademoiselle Ia 
comtesse, para verificar o que temos para o seu tamanho. No ser 
difcil, pois  magrinha. Enquanto isso pode descansar at mais tarde. 
Depois peo para um dos empregados acompanh-la at a loja onde eu 
estiver, e assim poder ver se aprova ou no o meu gosto.
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- Tenho certeza, madame, de que tem bom gosto e s poder escolher roupas
muito chiques!
Ndia viu a alegria estampada no rosto de madame Blanc. Nenhuma francesa 
deixava de ficar encantada com a oportunidade de gastar dinheiro sem 
limites em roupas, mesmo que fosse para outra pessoa.
Ndia estava realmente exausta e, assim que sua cabea tocou o 
travesseiro, adormeceu.
Madame Blanc voltou ao escritrio do marido e ele ainda estava 
conversando com Warren.
- A pobre garota estava muito cansada - comentou madame Blanc.
- S espero que a viagem amanh no seja demais para ela. Mas preciso 
voltar para casa - disse Warren.
- Sei que sua pressa em chegar  Inglaterra  tambm por motivos de 
famlia, mas no quis comentar nada - declarou madame Blanc.
- Por que diz isso?
Em vez de responder, o gerente passou o jornal L Temps para Warren e 
apontou para uma nota, no fim da primeira pgina.
J suspeitando do que se tratava, Warren leu:
"DISTINTO NOBRE INGLS MORTO
 com o mais profundo pesar que fomos informados de que faleceu nesta 
data o marqus de Buckwood, em sua manso em Oxfordshire... "
A nota continuava descrevendo a importncia do marqus na corte da 
Inglaterra, suas vastas propriedades e sua visita  Frana.
Assim terminava a nota:
"O filho nico do marqus faleceu recentemente, vtima de um acidente, 
enquanto cavalgava. O herdeiro do ttulo  seu sobrinho, o sr. Warren 
Wood, que est fora do pas h alguns meses e no est a par de sua nova 
posio.
Todos os esforos esto sendo feitos pelos advogados do falecido marqus 
para entrar em contato com o sr. Wood.
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Warren terminou a leitura e deixou o jornal de lado, surpreso e triste ao 
mesmo tempo.
O gerente do hotel estendeu a mo e lhe disse:
- Meus psames, monsieur, e tambm meus parabns!
- Obrigado. Agora compreende porque devo voltar para casa o mais depressa 
possvel.
- Claro, monsieur, porm, como madame disse, as roupas no podero ser 
compradas enquanto as lojas no se abrirem.
- No. Claro que no. E as roupas nestas circunstncias so ainda mais 
importantes.
- Mas, monsieur, no est sugerindo que eu compre roupas pretas para 
mademoiselle! - exclamou madame Blanc.
Warren pensou, imediatamente, que Ndia estava de luto porque havia 
perdido a me. Ao mesmo tempo, achou que guardar luto s iria atrapalhar 
seu retorno. Veio-lhe ento  mente o luto de Magnlia.
Acenando negativamente com a cabea, declarou:
- No h necessidade de ela pr luto. Nosso parentesco  pelo lado de 
minha me; assim no h por que pr luto pelo meu tio.
- Fico muito feliz! - exclamou madame Blanc. - O luto faz as pessoas 
parecerem um bando de corvos negros!
Warren sorriu. Entretanto ele sabia que a Frana era o nico pas no 
mundo capaz de tornar atraente, at mesmo sedutor, uma pessoa vestindo 
luto.
Os pequenos toques de branco sobre um vestido negro, a transparncia-dos 
chiffons ou da renda sobre a pele, dos modelos franceses, eram muito 
diferentes dos pesados crepes, do preto sobre o preto, que tornavam os 
trajes de luto na Inglaterra ainda mais tristes.
Warren falou, simplesmente:
- Peo-lhe, madame, que considere que a condessa era linda antes de
sofrer tanto nas mos dos sequestradores. Analise seus traos.
- Espero, monsieur, que esses bandidos recebam o castigo que merecem.
- O pai dela, o conde, com certeza far isso - respondeu Warren. - Mas 
agora o melhor  deixarmos o pas antes que
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algo desagradvel acontea. Bandidos quando no conseguem seu intento 
podem tornar-se excessivamente perigosos!
- Tudo ser arranjado, monsieur - disse o gerente -, ambos tero um vago 
particular no trem e, no barco, a melhor cabina. Tero tambm um 
acompanhante de viagem que cuidar de tudo que precisarem.
- Muito obrigado! - respondeu Warren.
Ali,  janela, sob o luar da madrugada parisiense, Warren sorriu. Como 
sua vida havia mudado! Parecia ter sido tocada por uma varinha de condo.
De agora para frente ele teria  sua disposio acompanhantes de viagem, 
valetes, criados de libr, todos atentos aos seus menores desejos. 
Esperando por ele na Inglaterra estariam secretrios, administradores, 
advogados e corretores que antes haviam servido ao tio. Agora o ajudariam 
a dirigir seus negcios, suas terras, seus empreendimentos.
Organizado como o tio era, Warren sabia que no teria problemas nem 
noites de insnia para continuar o trabalho do marqus de Buckwood. 
Realmente, tudo funcionava como uma mquina bem lubrificada.
- Sou muito feliz! - ele exclamou -, incrivelmente feliz! Correndo as 
cortinas para evitar a claridade do luar, ele foi
para a cama.
Sentado ao lado de Ndia no vago que fora reservado para ele, no trem 
que ia de Dover para Londres, Warren notou que, apesar de um pouco 
plida, ela estava extraordinariamente bonita.
Durante a travessia do canal ela havia dormido bastante em sua 
confortvel cabina.
Ele ficara passeando no convs, achando que precisava de ar fresco. 
Sentia-se muito melhor apreciando o mar que estava calmo e admirando os 
ltimos raios do sol daquela tarde adorvel.
Embora Warren no fizesse nenhum comentrio, estava achando maravilhoso 
todo o conforto e todo o luxo que o cercara at o momento, no s por ser 
completamente diferente da vida difcil e primitiva da frica, mas tambm 
porque tudo aquilo era um prenncio de tudo o que teria no futuro.
At aquele momento ele no dissera nada sobre seu novo
ttulo a Ndia. Todavia, ela era muito inteligente e notara o tratamento 
do pessoal do hotel, que passara a cham-lo de "milorde" em vez de 
"monsieur".
- Ontem, quando se recolheu - comeou Warren -, o gerente do hotel 
mostrou-me no jornal L Temps uma nota sobre a morte de meu tio.
- Sinto muito, se isso deixou-o aborrecido - disse Ndia.
- Eu j esperava a morte dele, pois minha me j me havia escrito 
avisando que ele estava nas ltimas. Depois da morte do filho ele teve um 
enfarte e estava em coma. Isso significa que sou, agora, o sexto marqus 
de Buckwood!
Ndia ficou calada por uns momentos. Depois disse:
- Isso o faz sentir-se muito importante?
- Sim! Sinto-me muito importante. Principalmente porque jamais pensara 
nessa possibilidade! Nunca me passou pela cabea que um dia seria o 
marqus de Buckwood!
- Ento alegro-me por voc! Acredito porm que a lady que deseja casar-se 
com voc vai ficar mais furiosa ainda!
- Pode ter certeza de que vai mesmo - disse Warren sem esconder sua 
satisfao.
Para evitar falar de si mesmo, Warren disse:
- Precisamos repassar nossa histria para que voc aja perfeitamente 
conforme o combinado. Tem que ser perfeita.
- Estou com tanto medo de cometer algum engano! No quero deix-lo... 
zangado.
- Prometo que no me zangarei. Alm disso, depois que a vi representar 
ontem  noite, sei que h uma fortuna esperando por voc no palco do 
Teatro Drury Lane, em Londres.
Ela riu, achando a ideia to divertida como impossvel. Ser atriz jamais 
lhe havia sequer passado pela imaginao. Warren continuou a conversa:
- A julgar pela bagagem que tem agora, no vamos precisar ir correndo s 
lojas; poder, portanto, descansar umas semanas no campo.
- Receio que madame Blanc tenha comprado roupas demais.
- No faz mal. Voc precisa estar bem-vestida para representar seu novo 
papel.
- vou fazer o melhor que puder. Jamais vi roupas to
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lindas, nem pensei que fosse possvel comprar trajes to maravilhosos em
to pouco tempo! Ndia deu um sorriso e continuou:
- Acredito que madame Blanc passou a noite toda acordada, batendo  porta
de donos de lojas e de maisons de alta costura. Ela me disse que em uma
das maisons estavam pagando horas extras para costureiras que haviam
comeado a trabalhar s quatro da manh, pois tinham que terminar um
vestido de noiva muito especial.
Foi a vez de Warren sorrir.
- com certeza essas lojas no quiseram saber de novas encomendas!
- Pelo contrrio, madame disse que ficaram muito felizes com o pedido que
ela fazia e disseram que mandariam os outros vestidos da tal noiva com
atraso de trs dias.
Warren tornou a rir.
- Parece que os franceses no se apertam em tais emergncias e at acabam
levando vantagens! com certeza gostam disso, pois cobram muito mais em
casos assim. E tm razo! Vale a pena pagar mais caro e conseguir o que
se precisa!
- Estou feliz porque pensa assim. Fico embaraada s em pensar que est
gastando tanto comigo!
- Fique sabendo que pagaria cem vezes mais se tudo isso der o resultado
que espero.
Havia uma nota de amargura na voz dele e Ndia olhou para ele,
apreensiva.
Ela mudou de assunto rapidamente, no querendo que Warren revivesse as
emoes fortes que j o haviam ferido tanto. Pediu ento a ele para falar
sobre Buckwood e sobre os parentes e amigos que ela iria conhecer.
Enquanto Warren falava sobre seu novo ttulo de nobreza e sobre sua
rvore genealgica, Ndia ouvia em silncio e com ateno. Ela entendeu
to bem tudo que ele explicou que Warren mais uma vez teve certeza de que
o mundo da nobreza era familiar para ela.
Quanto mais ele ficava perto de Ndia e quanto mais olhava para ela, mais
tinha certeza de que corria sangue azul nas veias dela.
Embora ela no quisesse dizer nada sobre si prpria, estava intrigado e
fascinado com o mistrio que a envolvia. Sabia que no teria sossego
enquanto no descobrisse o segredo daquela linda e meiga criatura que
entrara em sua vida de modo to inusitado.
Ao mesmo tempo, Warren achava que seria um grande erro estar insistindo
em que ela se abrisse com ele; Ndia poderia ficar magoada por ele querer
se intrometer na vida dela.
O que importava no momento era que todos acreditassem que ele estava
apaixonado por algum adorvel, e que tinha todas as qualidades para ser
a marquesa de Buckwood.
- Eu estava pensando - disse Warren -, se no seria melhor apresent-la a
todos como sendo uma princesa hngara Mas isso pode ser perigoso, pois
deve haver famlias hngaras na Inglaterra que conheam pelo menos de
nome a famlia real hngara.
- Isso  verdade - disse Ndia muito sria. -  mais seguro apresentar-me
como uma condessa, o que  mais comum na Hungria.
Warren sabia que na Hungria um conde, mesmo tendo uma dzia de filhos,
todos herdariam o ttulo, portanto todos eles seriam condes ou condessas.
Na Inglaterra era diferente, pois o ttulo passava s para o filho mais
velho.
Como se quisesse agradar Warren, Ndia disse:
- Se quiser, pode dizer que minha me tinha sangue real... isto ... para
aumentar a histria.
- ... parece timo!
- Mas h na fronteira com a Rssia - disse Ndia hesitando um pouco -
muitas famlias que so consideradas reais, apesar de no terem parte
nenhuma no governo do pas.
- Sei disso. E vejo que voc  no s inteligente, como est bem
informada. Ser mesmo muito interessante mencionarmos em nossa histria
que sua me foi uma princesa. S basta que voc mencione o nome de uma
famlia numerosa  qual sua me poderia facilmente pertencer.
- Claro! H tantos Rkcitz que duvido que algum, mesmo um hngaro,
possa cont-los a todos!
- Muito bem, ento sua me foi uma princesa. Agora sugira um nome de
batismo para ela.
- Que tal Olga?
- Excelente! Princesa Olga! E podemos dizer que ela era casada com o
conde Viktor Ferrais, um grande senhor de terras! Assim voc no ficar
em posio inferior  do marqus de Buckwood!
- Claro!... disse ela em tom brincalho - agora  a minha famlia que vai
achar o ttulo de marquesa de Buckwood no suficientemente alto para mim.
Os dois riram e Warren pensou em como ele tivera sorte em encontrar
aquela figurinha magra parada  beira do Sena e olhando para as guas
escuras. Felizmente compreendera a tempo o que ela estava por fazer.
Era, porm, pouco mais de meia-noite quando eles chegaram, finalmente, 
casa da me de Warren e Ndia estava muito cansada.
Nos telegramas que Warren mandara de Paris para a Inglaterra havia
instrues para que uma carruagem fosse esperar por eles em Victoria
Station.
Rapidamente, eles se dirigiram nessa carruagem para outra estao que os
levaria at Buckwood.
Novas carruagens, novos criados e eis que, afinal, passaram a soleira da
porta, entrando na casa de lady John, para encontr-la com os braos
estendidos  espera do filho.
- J deveria estar deitada, mame! - disse Warren abraando a bondosa
senhora. - No precisava ficar acordada esperando por mim.
- No conseguia descansar enquanto no visse que havia chegado em casa
so e salvo, meu filho! Oh, meu amado rapaz, como estou contente em v-
lo!
Ela o beijou novamente e depois olhou curiosamente para Ndia.
- Mame - disse Warren vagarosa e solenemente. - Gostaria que conhecesse
a condessa Ndia Ferrais, que trouxe comigo e que, conforme tenho o
orgulho de lhe dizer, prometeu ser minha esposa!
Apesar de saber que a notcia havia sido grande surpresa
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para a me, eSta no o demonstrou e, com sua graa e dignidade
peculiares, disse:
- Meu querido, como me alegro! Tenho certeza de que ambos sero muito, 
muito felizes!
Depois, dirigindo-se a Ndia e tomando a mo dela nas suas, disse:
-  uma grande alegria saber que terei uma nora to adorvel! Sei que 
cuidar bem de meu filho e tambm tenho certeza de que a amarei como a 
uma filha que no tive.
O modo como a gentil senhora falava era to sincero e comovente que fez 
os olhos de Ndia ficarem brilhantes, as lgrimas prestes a rolarem. 
Warren sabia que Ndia pensava em sua prpria me que perdera h to 
pouco tempo.
Para evitar que a emoo dominasse Ndia, Warren comeou a contar a lady 
John como eles se haviam conhecido antes de ele partir para a frica. 
Disse tambm que desde o instante em que se conheceram souberam o quanto 
um significava para o outro.
Ele contou tambm que Ndia havia ficado esperando por ele, na Frana, 
durante todo o tempo em que ele estivera na frica. O reencontro de ambos 
se dera h poucos dias quando ele chegara com Edward em Marselha.
- Claro que ela estava com uma parente mais velha disse Warren, acabando 
de pensar que uma moa no deveria jamais esperar por um rapaz sozinha. - 
Insisti para que essa parenta nos acompanhasse at a Inglaterra, porm 
ela precisava voltar para a Hungria.
- Achei mesmo que deveria ser hngara - disse lady John para Ndia. - Seu 
nome soa a nome hngaro. E, claro, como todas as suas conterrneas, voc 
 muito bonita, minha querida!
- Obrigada - Ndia respondeu com um sorriso meigo.
- Ela tambm est muito cansada - Warren interrompeuas. - Sugiro, mame, 
que ela v para a cama imediatamente. Amanh posso contar tudo que 
aconteceu durante estes longos meses de ausncia.
- Claro, meu querido.
A me de Warren levou Ndia para cima e deixou-a aos cuidados de uma 
criada j de meia-idade que ajudou-a a despir-se e preparar-se para 
dormir.
Depois que sua me j estava tambm recolhida, Warren foi at o quarto 
dela e sentou-se na cama ao seu lado.
Estou muito feliz por voc ter chegado a tempo para o
funeral - disse lady John. Quanto ao seu noivado, ser uma grande alegria 
para a famlia! Depois da morte de Raymond todos ficamos to abalados! E 
agora o pobre Arthur  quem nos deixa, meu filho!
- Mal pude acreditar ao ler sua carta que tudo era realidade, mame!
- Parece mesmo impossvel - concordou a me. - Mas, meu querido, a 
primeira coisa que tem a fazer logo de manh  procurar os advogados de 
seu tio e assumir as responsabilidades que antes repousavam sobre os
ombros dele. Todos estavam esperando ansiosos por sua volta.
- Claro, mame.
Ele ergueu-se e acrescentou:
- Bem, agora vou-me deitar. Estou muito cansado. Realmente, estive 
viajando por muito tempo.
- Voc parece timo, meu filho. Gostei muito de sua cor.
- Meu bronzeado? Pois saiba que h algumas semanas eu estava muito mais 
escuro, muito mais queimado do que qualquer rabe em pleno deserto.
- Voc est lindo! Tenho certeza de que essa encantadora lady que trouxe 
com voc tambm j lhe disse o quanto est atraente!
- Ela esteve muito doente, mame, e  tambm muito tmida.
- Ndia parece muito jovem e  tambm muito meiga! Havia sinceridade na 
voz da bondosa senhora. Depois de uma breve pausa, ela continuou:
- Sei que vai ficar muito surpreso com o que tenho para lhe contar: 
Magnlia Keane est em Buckwood!
O espanto de Warren no poderia ter sido maior.
- Ela est em Buckwood? E por qu?
- Magnlia foi para l com uma prima mais velha a quem ela chama de sua 
"chaperon". Est l desde o acidente de Raymond e parecia muito 
consternada pela morte do pobre rapaz.
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Mas o secretrio de seu tio, o sr. Greyshott, disse-me que Magnlia o
procurou para saber de voc. Ele disse tambm que ela parecia ansiosa
para entrar em contato com voc.
- Ela no esteve aqui em sua casa, mame?
- No, porque eu no quis mais v-la depois que voc havia deixado a
Inglaterra.
- Nessa poca ela tentou v-la, ento?
- Sim. Parece que estava curiosa para saber o que havia acontecido com
voc. De qualquer modo, ela apenas mandou saber se eu poderia receb-la e
eu mandei dizer que no estava muito bem para receber estranhos! Ela
pareceu entender.
Warren lembrou-se de que era bem prprio de sua me, quando queria,
demover qualquer pessoa que quisesse ser inconveniente ou intrometida.
Em seguida, ele disse:
- Sei que a senhora compreende, mame, que se h uma pessoa que no quero 
ver  Magnlia. Embora eu no tivesse dito nada a voc, na poca, agora 
posso lhe dizer que a razo por que deixei a Inglaterra, foi que Magnlia 
me disse que iria casar com Raymond.
- Eu sabia disso, meu filho.
- Sabia? Como? - perguntou Warren curioso.
- Ah, meu querido, no sou assim to tola como posso aparentar. Sei tirar 
as minhas concluses. Alm disso, embora seja lastimvel admiti-lo, os 
criados vem e... comentam.
Warren respirou fundo.
- Quer dizer que os criados de Buckwood perceberam que Magnlia estava 
tentando agarrar Raymond, mesmo j comprometida comigo, embora 
secretamente?
- Isso mesmo, querido. Compreendo perfeitamente sua decepo. E, se quer 
saber a verdade, jamais gostei de Magnlia. Tampouco confiei nela.
- Ento foi mais esperta do que eu!
- No tenha dvidas sobre isso!  muito difcil uma mulher enganar outra. 
Eu via que Magnlia no o amava por suas qualidades. Ela punha em 
primeiro lugar sua posio social, sua pessoa vinha em segundo plano.
Warren suspirou.
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Voc faz-me sentir um tolo, mame. Para ser sincero, sinto-me 
envergonhado de meu comportamento.
No vejo por que deva sentir-se assim. Mas, graas a
Deus, voc encontrou algum que eu posso amar como a uma filha. Ela
parece sincera. Parece querer se casar com voc e no com seu ttulo nem 
por causa de sua rvore genealgica.
Warren riu e disse:
- Ndia vem de uma famlia cujos ttulos so bem mais importantes do que 
os nossos. Perto da rvore genealgica de Ndia, a nossa  apenas um 
modesto brotinho.
- No fico surpresa ao ouvir isso. Os hngaros so um povo muito 
orgulhoso de suas origens. Meu querido filho, s lhe desejo toda a 
felicidade! Tenho um pressentimento muito agradvel que desta vez
encontrou a moa certa e que sero muito felizes.
Somente quando j estava na cama foi que Warren ps em ordem seus 
pensamentos e ficou imaginando se no era uma coisa muito reprovvel o 
que estava fazendo. Talvez no fosse direito estar comeando sua nova vida 
com mentiras. Estava enganando os que confiavam nele. como no caso de sua
me.
No mesmo instante, ele pensou que os fins justificam os meios. Afinal, 
Ndia seria uma tima razo para fazer Magnlia se afastar dele e de 
Buckwood o quanto antes. Ah, como ele ansiava pelo momento de deitar por
terra todas as suas esperanas de reconquist-lo. Como ficaria feliz ao 
v-la sumir de sua frente e de sua vida!
- Que v pr inferno! - ele disse entre dentes, na penumbra de seu 
quarto. - Como ela ousou vir para Buckwood a fim de prantear Raymond, 
como se fosse sua esposa, se havia escrito aquela carta para mim?
Subitamente, ele temeu aquela mulher. Magnlia poderia ser muito 
perigosa! No deveria subestimar uma pessoa como ela. Tinha certeza de   
que ela lutaria desesperadamente, com todas as armas, e no teria
escrpulos para conseguir o que queria.
Remexendo-se na cama, Warren dise para si mesmo:
- No vejo razo em temer provocar a ira de Magnlia. Todavia, um 
sentimento, talvez o da prudncia, lhe dizia
Para no ter tanta certeza da fragilidade de Magnlia Keane.
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CAPTULO IV

Warren estava tomando o caf da manh  sete e meia do dia seguinte,
quando o sr. Greyshott entrou na sala.
O sr. Greyshott havia sido o secretrio do marqus de Buckwood durante 
muitos anos. Agora j era um senhor grisalho, na casa dos cinquenta.
Ele era extremamente eficiente, uma pessoa ntegra e de seu semblante
irradiava autoridade.
- bom dia, Greyshott! - exclamou Warren. - Apesar de ter ido deitar muito
tarde, j estou preparado para todos os fardos que vai pr nas minhas 
costas!
O sr. Greyshott sorriu e respondeu:
- Espero que no sejam to assustadores, milorde.
- Sente-se e fale-me dos assuntos mais urgentes - o tom de Warren era 
agora srio. - E, claro, h o funeral.
O sr. Greyshott sentou-se e fez sinal com a mo para recusar o caf que o 
mordomo lhe oferecia.
Os criados deixaram a sala e Warren disse:
- Primeiro quero saber quais so os hspedes de Buckwood e quantos mais 
esto sendo esperados para esta noite.
- Tenho aqui a longa lista, milorde; muito longa, receio. At a morte de 
seu primo Raymond, nunca pensei que houvesse tantos Woods!
-  mesmo uma famlia bem grande. Mas muitos desses parentes mal conheo.
O sr. Greyshott entregou a lista a Warren que, olhando-a rapidamente, viu 
nomes de tias, tios, tios-avs, tias-avs, inumerveis primos e muitos 
amigos que j haviam chegado para as exquias do marques de Buckwood.
-  muita gente. Apesar de muito grande, o solar de Buckwood no poder 
acomodar bem a todos - observou Warren.
- J tomamos as devidas providncias. E. se me permite.
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todos esperam pelo senhor no solar. A sute principal j est preparada 
para receb-lo.
Warren aceitou o convite, pois fazia parte da tradio e respondeu 
apenas:
- Sim, farei isso.
Ainda passando os olhos pela lista, deparou com o que procurava:
Srta. Magnlia Keane Sra. Douglas Keane
Ele olhou para o sr. Greyshott e disse, escolhendo cuidadosamente as 
palavras:
- No vejo razo para a srta. Keane estar hospedada no solar. Se ela 
quiser assistir ao funeral, no posso impedir. Acho, porm, que deve 
ficar hospedada em um hotel ou em casa de amigos.
A voz dele foi se tornando mais dura e como o sr. Greyshott no disse 
nada, ele continuou:
- Como deve saber, trouxe minha noiva comigo e pretendia anunciar nosso 
noivado  famlia. com a morte de meu tio,  claro que vamos ter que 
esperar um pouco, mas quero que o senhor participe a todos que a condessa 
e eu j assumimos um compromisso srio.
O sr. Greyshott olhou surpreso para Warren e este acrescentou:
- Estando de luto, como estou, parece ficar melhor que o senhor, e no
eu, explique aos parentes que a condessa Ndia  minha noiva.
- Est bem, se quer assim. Mas acho que talvez no seja... prudente 
desalojar a srta. Keane.
- Por qu?
- Porque ela certamente se ressentiria e tambm porque ela ganhou a 
simpatia de todos, por ocasio do funeral de seu primo. Todos ficaram 
sabendo que ela e Raymond estavam noivos, embora no oficialmente.
Warren apertou os lbios. Depois perguntou, curioso:
- No compreendo por que o noivado deles no foi oficializado! Afinal, 
seria mais do que apropriado se eles oficializassem esse noivado em maro 
ou abril.
- Era o que Magnlia queria, mas o senhor seu tio insistiu em que o 
noivado fosse anunciado formalmente pelo Natal.
Warren arqueou as sobrancelhas.
- E por que insistiu nisso?
O sr. Greyshott hesitou e Warren disse firme:
- Diga-me a verdade, Greyshott. Quero saber de tudo!
- Acho que o senhor marqus no gostava da srta. Magnlia e tinha certeza 
de que quando o senhor a trouxe para conhecer Buckwood j pretendia 
casar-se com ela.
Warren estava atnito.
- Como poderia tio Arthur saber uma coisa dessas?
- No se pode impedir os comentrios de criados. Alm disso, o marqus 
gostava muito do senhor. No seria mentira nem exagero dizer que ele
sempre desejou que o senhor fosse filho dele e no sobrinho.
- Ento ele no gostava de Magnlia! - a voz de Warren saiu quase num
murmrio.
- A srta. Keane e Raymond suplicaram ao marqus para que consentisse que 
eles anunciassem seu noivado, mas o marqus foi inflexvel. Ele disse que 
se os dois no mudassem de opinio at o Natal, ou talvez at o baile que 
abria a temporada de caa, no comeo de dezembro, ento poderiam anunciar 
seu noivado oficial.
O marqus podia ser um ditador quando lhe convinha e Warren imaginou como 
Magnlia devia ter ficado frustrada.
com a morte de Raymond ficou claro que ela havia perdido um casamento 
vantajoso por causa da espera.
O olhar de Warren era duro e duras foram suas palavras:
- Mesmo assim, ela no tem direito nenhum de permanecer em Buckwood. 
Quanto antes nos livrarmos dela, melhor!
Pela expresso estampada no rosto do sr. Greyshott, Warren percebeu que
no era uma tarefa fcil a que impunha ao ex-secretrio de seu tio. Ento
ele perguntou em tom decidido:
- Raymond deixou um testamento ou coisa parecida em favor da srta. Keane?
- Sei que ela pediu qualquer coisa ao noivo nesse sentido. Seu tio, 
porm, soube pelos advogados da famlia quais eram
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as intenes do filho e proibiu-o de fazer o que quer que fosse em favor 
da srta. Keane.
Warren estava detestando aquela conversa cada vez mais e, erguendo-se, 
disse:
- No desejo ver a srta. Keane em minha frente. Portanto, diga-lhe que 
cheguei com minha noiva e preciso dos aposentos que ela e a sra. Keane 
ocupam.
- Sim, senhor, farei isso.
O sr. Greyshott saiu e notava-se que estava extremamente aflito.
Havia um cavalo esperando por Warren na porta da casa e ele montou-o, 
atravessou os campos e foi at o solar.
Logo viu o prdio majestoso, o estandarte do marqus a meio-pau, 
tremulando ao vento. Parecia um sonho que aquela magnfica residncia e 
todas as terras que a circundavam agora lhe pertenciam, pensou Warren.
O sol refletia nas dezenas de janelas, fazendo-as reverberarem como ouro 
e de ouro lquido era tambm o lago, ao sol matinal. Warren se imaginava 
um personagem fantstico sado de um conto das mil e uma noites.
Ele sempre amara Buckwood. O solar guardava as mais doces e gratas 
lembranas de sua infncia e de seu amado pai.
Voltando ao aconchego do lar, Warren teria que se devotar por inteiro a 
servir ao patrimnio que lhe fora legado e a manter vivas as tradies da 
famlia, como seus ancestrais haviam feito antes dele. Era agora o 
marqus de Buckwood!
Ao chegar  entrada principal viu que havia muitas carruagens paradas.
Ele imaginou que assim que transpusesse a porta da frente, adentrando o 
hall imenso, com piso de mrmore, com suas esttuas de deuses e deusas, 
com suas bandeiras, smbolos das batalhas que os membros de sua famlia 
haviam vencido intrepidamente, ouviria os sons do pessoal reunido, 
conversando.
Buckwood sempre fora o lugar onde a famlia e os amigos se reuniam para 
compartilharem as alegrias ou tristezas.
Warren no estava enganado. Um burburinho, a princpio indistinto, depois 
mais claro vinha do salo de recepes. Perto da escada ele viu uma 
poro de chapus sobre uma mesa.
com um ligeiro sorriso, abriu a porta e entrou no salo.
Quase s uma hora depois foi que ele conseguiu se desven cilhar dos
abraos e beijos das mulheres da famlia e dos apertos de mo dos homens.
Foi reconfortante saber que todos pareciam sinceros ao ex pressar que se 
sentiam felizes por ele ser agora o chefe da famlia e o herdeiro do tio.
Todos os parentes haviam amado lorde ohn e nenhum deles jamais havia tido 
uma desavena sequer com ele. Desde que Warren nascera havia sido tratado 
por todos com muitos agrados. Agora os parentes se rejubilavam com ele.
Mais tarde, quando Warren se encaminhava para a biblioteca, onde o tio 
sempre se reunia com ele para tratar dos assuntos da fazenda, foi que se 
lembrou que ningum ainda sabia de seu "noivado" e imaginava o que os 
parentes iriam pensar de Ndia. Ele havia deixado bem claro para os 
criados, na casa da me, que no acordassem Ndia. Ela precisava dormir 
at mais tarde. Warren achou que ela no deveria assistir s cerimnias 
fnebres. Seria mais aconselhvel s almoar e jantar com a famlia e 
ento ele a apresentaria como sua futura esposa.
A surpresa seria geral, mas o choque maior, certamente, seria o de 
Magnlia.
O sr. Greyshott, que j estava esperando por Warren na biblioteca, ps 
diante dele o que havia preparado para as exquias do marqus: os 
impressos para a cerimnia religiosa que tinha uma capa com uma larga 
tarja negra; os horrios respectivos e a lista de convidados para o 
almoo.
- H parentes que chegaro  tarde - explicou o sr. Greyshott. - Farei 
nova lista para o jantar.
- J falou com a srta. Keane?
- Sim, senhor, mas ela se recusa a sair sem antes falar com o senhor.
- No tenho a menor vontade... - comeou Warren. Nesse exato momento a 
porta se abriu e Magnlia entrou
na biblioteca.
Mesmo olhando-a de relance, Warren notou que ela estava ainda mais 
maravilhosa do que da ltima vez que a vira. Todavia, enquanto caminhava 
com uma graa sensual que, naquele traje preto, a fazia parecer quase 
imoralmente sedutora,
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Warren dizia a si mesmo que poderia nutrir por aquela mulher um nico 
sentimento: o de dio.
O sr. Greyshott murmurou uma desculpa e saiu imediatamente da biblioteca.
Assim que a porta fechou, Magnlia disse com voz suave e acariciante 
que Warren conhecia to bem:
- Que bom ter voltado! Oh, querido, parece que faz uma eternidade que no 
nos vemos!
Ele havia se levantado assim que ela entrara ali e continuou na mesma 
posio, atrs da escrivaninha. com voz fria ele respondeu:
- Estou surpreso em encontr-la aqui ainda!
- Se eu tivesse partido logo aps o enterro de Raymond, no teria visto 
voc. No recebeu minha carta em Paris?
- Recebi sua carta que havia chegado trs dias antes de mim. Dizendo isso 
ele olhou fixamente para Magnlia e percebeu
que ela no esperava aquela resposta. Os longos clios dela tremeram. com 
muita presena de esprito, disse:
- Escrevi-lhe assim que voc partiu, mas no havia razo de enviar a 
carta seno quando estivesse para voltar  Inglaterra.
- O que, para maior convenincia, foi logo aps o acidente de Raymond!
Magnlia mantinha seu autocontrole e, fazendo um movimento muito
expressivo e gracioso com a mo, perguntou:
- Por que fala comigo desse jeito?  verdade que o amo! Sempre amei voc, 
Warren. Voc sabe disso! Ser que no poderia esquecer e perdoar um 
momento de loucura?
Ela deu um profundo suspiro e continuou, mais veemente:
- Quando vi esta casa maravilhosa, no pude pensar em mais nada a no ser 
fazer tudo para morar nela e vir  ser um dia parte da famlia Wood.
A voz dela era pausada, calma e carregada de ternura, como se ela 
quisesse tecer ao redor de Warren uma rede de magia da qual ele 
dificilmente pudesse escapar.
Antes que ela fosse longe demais, Warren cortou o assunto com voz 
rspida:
- No adianta, Magnlia! Est perdendo seu tempo! No estou aqui para 
ficar ouvindo suas mentiras! J disse ao sr.
Greyshott que pedisse para voc deixar Buckwood e  apenas isto que tem a 
fazer.
- Ele tambm me disse que voc trouxe sua noiva consigo.  verdade?
- Claro! Greyshott s diz a verdade. Eu tambm!
- Quer dizer que pretende mesmo se casar com outra mulher e no comigo?
Essa pergunta foi feita num tom provocante e Magnlia sorria de maneira 
estranha. Para surpresa de Warren, ela deu a volta pela escrivaninha e
ficou ao lado dele.
Ento, tombando a cabea para trs, olhou para ele com uma expresso no 
olhar que Warren sempre achara adoravelmente irresistvel, os lbios dela 
j roando os dele e ela sussurrou:
- Warren! Warren! Eu o amo como voc me ama! Como poderemos esquecer os 
momentos de xtase que passamos juntos? Como poderemos esquecer dos 
beijos ardentes e apaixonados que trocamos?
Antes que Warren pudesse se mover, ela o envolveu com seus braos e puxou 
a cabea dele para bem junto de si e beijou-o com loucura.
Warren sentiu o ardor com que ela o beijava; sentiu tambm o calor 
daquele corpo macio contra o seu. A fragrncia que vinha dela tinha algo 
de extico e sensual. Mas ele j no sucumbia aos encantos daquela 
mulher. Ela j no tinha mais o poder de enfeiti-lo. Estava quebrado o 
encanto.
Se havia alguma sombra de dvida de que Magnlia Keane ainda representava 
algo na vida de Warren, aquele contato serviu para essa dvida se 
desvanecer.
Ele apertou os pulsos dela com fora e tirou os braos dela de seu 
pescoo.
- J disse que no adianta, Magnlia! Perde seu tempo. Compreendendo que
ele j no se impressionava, a primeira
reao dela foi de incredulidade, depois foi de uma raiva imensa.
Por uns instantes reinou o silncio na austera biblioteca. Depois, como 
se achasse difcil acreditar no que estava acontecendo, Magnlia 
perguntou:
- Est mesmo decidido a me mandar embora desta casa?
- Insisto em que deixe a minha casa! Voc s est causando embarao. No 
tem nenhum direito de ficar aqui. Nem noiva oficial de Raymond voc era.
Enquanto ele falava, soltou dos pulsos de Magnlia, que ficou esfregando-
os como se Warren os tivesse machucado.
- Pensei que me... amasse.
- Amei-a demais... um dia. Amei-a to intensa e completamente que fiquei 
cego. Finalmente compreendi que voc me usava para alcanar sucesso 
socialmente. Voc jamais me amou! Interessava-se pelo lorde que eu era e 
no pelo homem sincero e apaixonado que se prostrava aos seus ps.
- Isso no  verdade! Eu o amava e ainda o amo!
- S diz isso porque me perdeu. Admita que jamais gostou de ser uma 
perdedora.
- Perdi mesmo voc?
A voz dela era to doce e humilde que Warren se convenceu de que ela 
fazia um ltimo esforo no desespero de t-lo de volta.
- J sabe que estou noivo e pretendo casar-me quanto antes. Adoro minha
noiva e confio nela plenamente.
Depois, num tom extremamente formal e corts, ele acrescentou:
- Adeus, Magnlia. Compreenda que tenho muito o que fazer e espero que me 
desculpe por no estar presente quando deixar Buckwood.
Aquele tom era mais destruidor do que uma torrente de insultos. Sem ter 
outra alternativa, Magnlia caminhou at a porta vagarosa e altivamente. 
S quando j ia sair foi que voltou-se, dizendo:
- Vai se arrepender por me tratar desse jeito! E no pense que me 
esqueceu! Jamais me esquecer nem encontrar outra mulher que o leve a  
alcanar a perfeio do amor! Quando estiver beijando sua noiva lembrar
de meus beijos. Quando tocar nela sentir desejos de tocar meu corpo. 
Voc vai sentir desesperadamente a falta das batidas de meu corao bem 
junto ao seu e vai ouvir o som de minha voz dizendo de meu amor!
Ela falava de modo hipntico e enfeitiador. Mas Warren no se deixou 
impressionar. Estava imune quele encanto e
sabia que Magnlia estava fazendo cena. Era teatral demais para o gosto 
dele. Alm disso, queria impressionar o marqus de Buckwood e no Warren, 
o homem.
- Adeus, Magnlia - ele disse, apenas retomando seus afazeres.
Magnlia ficou uns segundos  porta e logo desapareceu.
Quando teve certeza de que ela no voltaria, Warren levantou-se e foi at 
a janela respirar um pouco de ar fresco. Era do que precisava no momento.
Ele se sentia como se houvesse lutado contra alguma coisa que o ameaava. 
Mas Magnlia no teria poder de enred-lo em sua teia. Todavia pensou que 
deveria ser cauteloso para no ser destrudo. Bem, mas agora quem estava 
sendo teatral demais era ele. Magnlia com certeza se afastaria de sua 
propriedade e de sua vida. Agora precisava trabalhar e quanto antes 
clareasse suas ideias, melhor.
Sentado  escrivaninha Warren sentiu seu colarinho apertando-o, como se
mos invisveis lhe comprimissem o pescoo; era-lhe difcil respirar
normalmente.
Ndia desceu pouco depois das onze da manh. Sentia-se constrangida por 
haver dormido at to tarde. O mordomo, encontrando-a no hall, disse:
- Lady John pede-lhe desculpas, mas s descer para o almoo. Ela estava 
exausta.
- Tambm me levantei muito tarde.
- Devia estar muito cansada. Fez uma longa viagem, milady.
- Sim. Longa e. cansativa.
O mordomo abriu a porta da sala de estar e Ndia entrou ali. Havia na 
sala algumas portas que davam para o jardim e Ndia foi admirar as rosas.
Como em todo jardim ingls, havia ali muitas roseiras que, por ser vero, 
estavam todas floridas. Havia rosas de diversas cores e matizes: 
vermelhas, cor-de-rosas, amarelo-claras e amarelo-ouro, brancas, todas 
formando um quadro de beleza indescritvel. O silncio que ali reinava 
era s interrompido pelo zumbido das abelhas adejando sobre as flores e 
pelo canto dos pssaros, nos arbustos.
Mdia sentia-se como num reino da fantasia depois de haver morado com a 
me num quartinho srdido de gua-furtada. S em pensar nos dias que 
havia passado com a me naquele ambiente insalubre e sem conforto, Ndia 
estremeceu.
Ali, na paz daquele jardim em flor, ela se lembrava do luxo que havia 
sido seu caf da manh. Alm da fartura, o servio era todo em prata e 
porcelana, a toalha e o guardanapo de linho com o monograma de lorde John 
bordado a mo. Sentiu vontade de chorar pois se lembrava da me,
Doa-lhe o corao pensar que sua me, uma mulher acostumada ao luxo, 
havia sido obrigada a viver na misria, comendo mal e em pratos lascados. 
No era de admirar que no tivesse aguentado e que tivesse morrido to 
cedo. No fora s a doena que a havia matado, mas tambm a fome e a 
desesperana.
Ndia deu-se conta que estava lamentando o passado. Devia, doravante, se 
preocupar com o futuro. Novamente, seus pensamentos se voltaram para a 
noite em que Warren a salvara. Se no tivesse feito isso ela estaria 
agora enterrada em uma vala comum, como indigente e, por haver cometido 
suicdio, no teria nem mesmo o consolo das oraes da Igreja. Pelo 
menos, sua me tivera um enterro digno e as bnos da Igreja.
Naquela manh, ao tomar seu desjejum, Ndia havia se esforado para se 
alimentar bem. Precisava recuperar suas foras para ajudar seu salvador. 
Alm das foras, ela precisava ter vivacidade e entusiasmo.
Na noite anterior, quando a criada foi ajud-la a despir-se e preparar-se 
para deitar, Ndia viu como as semanas - ou foram meses? - de privaes 
haviam cobrado de seu corpo um pesado tributo.
Agora, felizmente, ela estava na Inglaterra, tinha outra identidade no 
tinha mais receio de nada.
Ento ela se lembrou de seu benfeitor e sorriu feliz ao recordar que ele 
era agora um marqus. No fora s a vida dela que mudara, mas a dele 
tambm.
Ali na Inglaterra, servida por criados gentis, vivendo naquela linda 
manso, sua vida era quase igual  que tivera um
dia no passado, em sua terra...
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E havia ainda os lindos e caros vestidos, todos seus, no guarda-roupa.
- Devo estar sonhando - pensou ela.
Subitamente, ela teve uma vontade de subir as escadas correndo, ir at 
seu quarto e abrir o guarda-roupa, talvez fosse acordar...
O jardim inundado pela luz do sol, as rosas, o vetusto muro de tijolos 
vermelhos, tudo fazia parte daquele sonho do qual ela no queria 
despertar.
A me de Ndia sempre lhe havia descrito os jardins ingleses. E agora ela 
estava ali sozinha, apreciando a beleza de um desses jardins.
Ndia sentou-se extasiada em meio quela beleza e imersa em seus 
pensamentos. O que a fazia mais feliz era saber que ali estava segura. 
No havia perigo de ser ouvida, nem precisava temer nada.
- Felizmente estou na Inglaterra e estou a salvo! - ela disse alto.
J estava mais quente e ela voltou para a sala de estar.
Ali, na grande sala de estar, ela se lembrava das descries que a me 
havia feito e verificou que a descrio conferia.
Havia na sala sofs e poltronas confortveis, mesas diversas sobre as 
quais estavam inmeros objetos de arte valiosos, caixas de rap, esttuas 
de porcelana de Dresden, porta-retratos com moldura de prata, que exibiam 
orgulhosas fotografias de mulheres lindas.
Havia quadros nas paredes, todos assinados por pintores famosos. Um 
deles, pintado por sir Joshua Reynolds, estava na parede acima da cornija 
da lareira. Na outra parede Ndia reconheceu uma linda tela assinada por 
Jean-Baptiste Greuze.
Outra tela que chamou a ateno de Ndia foi uma cena de famlia, onde 
todos vestiam-se com costumes do sculo anterior e, ao fundo, via-se uma 
casa magnfica que Ndia achou que era, com certeza, Buckwood.
Ela no havia visto Buckwood na noite anterior, pois estava muito escuro. 
Mas esperava visitar o solar naquela tarde.
Ndia j sabia o quanto o solar significava para Warren. Quando ele 
falava sobre a linda casa que fora de seus ancestrais,
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sua voz at se enternecia. Era como se ele falasse de uma pessoa
que amasse muito.
Ndia viu-se pensando em Warren, como um homem maravilhoso, amvel, cheio
de bondade. Pareceu-lhe estranho que uma mulher pudesse t-lo desprezado
de maneira to cruel, a ponto de ele desejar vingar-se.
Ndia era perceptiva demais para no haver notado que a tal mulher que
havia dado o fora em Warren o fizera sofrer de tal maneira que ele jamais
esqueceria.
Todavia, a amargura que havia no corao de Warren no condizia com a
magnanimidade de seu carter. Essa amargura era como uma taa de fel e
era preciso libert-lo dela.
Enquanto tudo isso lhe passava pela cabea, Ndia continuava a admirar as
lindas telas. Foi ento que notou que a magnfica cena de famlia havia
sido pintada por Gainsborough.
No pde deixar de pensar que logo Warren tambm seria retratado da mesma
maneira, com sua famlia, tendo ao fundo o solar que ele tanto amava.
Subitamente, seus pensamentos foram interrompidos pela porta que se
abria.
Ndia voltou-se pensando que era Warren.
Ela viu, entretanto, no Warren, mas uma moa linda, vestida de negro.
Ndia no pde evitar e ficou olhando para ela, magnetizada.
O vestido da jovem, apesar de simples, revelava cada curva do corpo
principalmente do busto e dos quadris. Ela usava um longo cordo de
prolas e tinha na cabea um chapu preto com plumas de avestruz, tambm
negras.
Ndia observou que a pele da jovem era to suave e to translcida como
as prolas que a adornavam.
Os olhos da recm-chegada eram escuros, assim como os longos clios que
os emolduravam.
Chegando perto de Ndia, a moa exclamou, agressiva:
- Sei que est tentando agarrar Warren!
O tom rude e inesperado deixou Ndia sem ao e ela apenas conseguiu
articular umas poucas palavras:
- Estamos noivos.
- Pois ento deixe-me adverti-la - disse Magnlia -,
voc no vai se casar com ele! Nem tente fazer isso, seno ir
arrepender-se amargamente!
Havia tanto veneno naquela voz e tanta fria naqueles olhos to lindos
que Ndia ficou assustada. Fazendo esforo para sua voz no sair muito
vacilante, ela respondeu:
- Eu... no compreendo.
- Caso ignore, meu nome  Magnlia Keane e Warren me pertence! Ele sempre
foi s meu. Se ele pensa que pode escapar de mim, est muito enganado!
Quanto a voc...
Magnlia olhou para Ndia como se a desprezasse e terminou sua frase:
- volte para o lugar de onde veio e arranje outro homem. No vai ter o
meu!
- No sei do que est falando! - Ndia gritou.
Mas Magnlia, j tendo destilado todo o seu veneno, voltou se e retirou-
se da sala.
Enquanto andava, Ndia observou-lhe os movimentos sen suais, o que a fez
lembrar-se do colear de uma serpente.
Quando Ndia ficou sozinha, no conseguia imaginar que o que acontecera
fora real.
Agora podia compreender por que Warren havia ficado apaixonado por aquela
mulher to linda, a ponto de querer se matar quando ela o abandonou.
O amor por uma mulher como Magnlia no poderia jamais ser calmo e meigo,
mas se comparava mais a uma paixo ardente, a um fogo que queima quem com
ele se envolve; um fogo que consome os que o sentem. Quando um amor
desses se acaba, deixa os amantes exauridos, entregues ao desespero.
- Posso avaliar o que Warren sentiu - disse Ndia baixinho. - Mas se
Magnlia ainda o deseja, por que ele quer que eu me faa passar por sua
noiva?
Quando Warren lhe dissera, em Paris, o quanto estava desiludido, ela
pensara que ele havia perdido a esperana de ter a sua amada novamente.
Jamais esperava ver a prpria Magnlia Keane tentando recuperar o ex-
noivo.
com as pernas trmulas, Ndia resolveu sentar-se em uma poltrona,
enquanto tentava raciocinar melhor. Talvez -achasse uma explicao para
tudo o que acabara de acontecer.
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No tardou a atinar com a razo do ataque tempestuoso de Magnlia.
Naturalmente, ela recusara o pedido de casamento de Warren por ter tido a
chance de se casar com algum com um ttulo. Esse algum deveria ser o
jovem recentemente falecido. Agora que o pretendente estava morto, ela 
queria Warren de volta, mas ele no mais a queria.
Apesar de parecer um pouco complicado, Ndia podia compreender que Warren 
tinha seu orgulho e no se deixaria envolver novamente por uma mulher 
como Magnlia Keane, mesmo sendo de uma beleza estonteante.
- Essa mulher  linda, mas perigosa - murmurou Ndia.
Lembrando-se do olhar determinado e cheio de dio de Magnlia, Ndia 
voltou a sentir medo. No era o mesmo medo que ela sempre sentira desde 
que fugira de seu pas com a me. Sentia agora um calafrio percorrer-lhe 
a espinha e um tremor tomar conta de seu corpo.
A porta abriu-se novamente e Warren entrou.
Ela ergueu o olhar e viu aquele homem to bonito, elegante em seu traje 
de montaria, dirigindo-se para ela. As botas dele estavam reluzentes e na 
mo ele carregava um chicote tranado. Havia, tambm, algo de 
confortador, de vigoroso e seguro envolvendo-o.
Warren fechou a porta e caminhou para Ndia.
- O que aquela mulher estava fazendo aqui? - ele perguntou sem fazer 
rodeios. - Ela aborreceu voc?
- Como... como soube que ela esteve aqui?
- Vi a carruagem dela se afastando. Tive certeza de que Magnlia s podia 
ter vindo aborrecer voc ou minha me.
- Sua me ainda no desceu.
- Ento ela veio aborrecer voc! O que foi que ela disse? Warren estava 
to irritado que Ndia comeou a tremer e
ficou plida. Ele logo percebeu que a estava assustando e mudou seu tom.
- Voc se aborreceu e isso era a ltima coisa que eu queria! Sinto muito,
Ndia, quero que sua estada aqui seja muito agradvel. Mas eu devia ter 
previsto que isso iria acontecer.
- Como poderia saber?
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- Quando mandei Magnlia deixar Buckwood, devia imaginar que, zangada 
como estava, iria procurar voc. Disse-lhe que estvamos noivos.
- A srta. Keane  muito bonita!
- Uma vez tambm pensei assim.
- E agora?
Ndia ergueu a cabea para olh-lo e viu que ele estava sorrindo.
- Ela no tem o menor poder sobre mim.
- S posso ficar muito feliz... por voc!
- Mas  imperdovel que ela tenha vindo aborrecer voc!
- Estou bem agora. Foi o modo como ela falou que me assustou um pouco. 
Ela disse que... voc pertencia a ela.
-  a que ela mais se engana! Ele deu um suspiro e continuou:
- Talvez fosse melhor eu no lhe contar nada sobre o assunto. Mas como 
est me ajudando deve saber de toda a verdade. Eu mesmo no estava muito 
seguro de que, quando voltasse a ver Magnlia, pudesse ficar livre de
suas garras.
- E como se sentiu?
Warren se recordou do beijo que Magnlia lhe dera e que no lhe causara a 
mnima emoo.
- Estou livre, completamente livre das garras dessa mulher. Ele foi at 
uma das portas que davam para o jardim e ali,
sentindo o aroma das flores, vendo o sol iluminando aquela cena to linda 
e imaginando que era o senhor de toda aquela beleza, como da casa, do 
lago, dos grandes carvalhos, sob cuja fronde se abrigavam coras e gamos, 
sabia que no poderia pairar sobre ele a menor sombra de infelicidade. 
Atrs dele uma voz suave disse:
- Talvez no precise... mais de mim. Talvez eu deva ir embora.
Ele voltou-se e viu nos olhos de Ndia uma indagao tcita e sabia que 
ela temia ser mandada embora.
- Claro que preciso de voc - ele disse tranquilizando-a.
- Nada poderia ser mais desastroso do que Magnlia desconfiar, pelo menos 
por um momento, que voc no  realmente minha noiva.
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- Ento quer mesmo que eu fique?
- Insisto em que fique! Nosso trato foi o de que voc ficaria enquanto eu 
precisasse de voc.
- Sou mesmo necessria? No est apenas dizendo isso para... ajudar-me?
- Voc me  mais do que necessria. E quando digo que preciso de sua 
ajuda estou sendo muito egosta! Estou pensando em mim e no em voc.
Ele percebeu o quanto Ndia ficara aliviada com as palavras dele e 
acrescentou:
- Aprendi no exrcito que nunca se deve subestimar o inimigo e tenho o 
pressentimento de que Magnlia no vai desistir to facilmente.
- Tambm tive essa impresso... mas est certo de que ela no poder 
feri-lo agora?
- No, claro que no! Quando eu estava apaixonado por ela ainda poderia
ser mais vulnervel.
- E agora?
- Ela simplesmente no existe para mim. Ela no faz parte nem mesmo do 
mais nfimo de meus pensamentos.
- Ao mesmo tempo, enquanto no se certificar exatamente do que ela 
pretende fazer, penso que ela pode ser perigosa.
- Tolice! Estamos apenas nos assustando com fantasmas inexistentes, como 
no tempo em que ramos crianas.
- Como me assustei com eles na minha infncia! - disse Ndia sorrindo.
A sombra que ele notou no olhar de Ndia f-lo sentir que os temores dela 
se prolongaram mesmo quando ela j era mais velha. Ele sentiu vontade de 
perguntar o que  que a afligia, mas achou inoportuno.
Talvez, um dia, ela viesse a confiar nele. Esperaria esse momento e 
respeitaria at l o desejo dela de manter segredo sobre seu passado.
- Quero pedir-lhe que venha almoar comigo no solar. L conhecer alguns 
de nossos parentes. Outros voc ver no jantar, pois chegaro mais tarde. 
E agora, como temos ainda algum tempo at o almoo, poderemos dar uma 
volta pela fazenda e, claro, poder admirar o solar.
83
Ndia juntou as mos e disse alegremente:
- Posso mesmo fazer isso?
- Estou convidando-a para vir comigo.
- No vou demorar mais que um minuto para pegar meu chapu.
- Estou disposto a esperar at mais que isso.
Ela saiu dali quase correndo e o marqus ouviu os passos dela 
atravessando o hall.
Ele sorria ao pensar que, por vezes, Ndia era to espontnea como uma 
criana.
- Foi muito bom ter trazido Ndia para c - ele murmurou para si mesmo. - 
Vai ser mais fcil ver-me livre de Magnlia com o auxlio desta garota.
Ento ele pensou no que seus parentes iriam pensar de Ndia. Naturalmente 
achariam que ela seria uma escolha mais certa para se tornar a marquesa 
de Buckwood do que Magnlia.
Ele percebera que as mulheres em geral olhavam Magnlia com reservas, e 
muitas demonstravam claramente que no gostavam dela.
A beleza de Magnlia era considerada exuberante demais, no havia 
modstia nem discrio nas atitudes dela. Ela era um tanto... teatral.
Para ser a marquesa de Buckwood, uma jovem deveria ter, alm da beleza, 
maneiras polidas advindas de uma educao esmerada; essa jovem deveria 
ser algum em quem os prprios criados reconhecessem todo o refinamento 
de uma perfeita lady.
Embora parecesse estranho, Ndia era exatamente assim: uma lady perfeita. 
Warren ento se perguntava a que Charrington pertencia a famlia dela. A 
famlia poderia ter evitado que Ndia e a me ficassem ao desamparo, 
morrendo de fome.
O sobrenome Charrington no era incomum, todavia ele no se lembrava de 
conhecer ningum com esse sobrenome.
- vou perguntar aos meus amigos se conhecem alguma famlia Charrington - 
disse ele. - Quando for a Londres vou tambm perguntar sobre isso ao 
secretrio de meu clube. Ele conhece todos os scios pelo nome.
Nesse momento ele ouviu que Ndia vinha descendo as escadas e foi ao 
encontro dela. No podia se esquecer de que ela
era a condessa Ndia Ferrais, que vinha de uma antiga e tradicional 
famlia hngara.
Pela primeira vez, lhe passou pela cabea que, se Ndia se fazia passar 
por hngara, deveria mostrar a todos que era excelente amazona, para no 
levantar suspeitas.
Warren ajudou Ndia a subir no faetonte, puxado por dois cavalos 
soberbos, que esperava por eles em frente  manso.
Enquanto eles se afastavam, Warren perguntou a Ndia:
- Ainda no lhe perguntei, mas voc gosta de cavalgar?
- Sei o que quer dizer - disse Ndia, com os olhos brilhantes -, est 
perguntando isso porque, passando por hngara, devo cavalgar bem para 
convencer a todos de minha origem.
- Est lendo meus pensamentos!
- Da mesma forma que voc l os meus.
- No respondeu  minha pergunta.
- Cavalgava muito bem. S receio no estar em forma pois no pratico h 
bastante tempo. Mas no se esquece assim facilmente uma coisa que se faz 
desde criana. Talvez, se montar um cavalo muito fogoso, fique um pouco 
dolorida nos primeiros dias.
- Vai praticar bastante depois do funeral.
- Ento fiz bem em pedir a madame Blanc para comprarme tambm um traje de 
montaria... caso me pedisse para acompanh-lo num passeio a cavalo pela 
fazenda.
Warren riu, feliz e disse:
- O problema com voc  que sempre est bem  minha frente! Voc  mesmo 
imprevisvel. S agora pensei em que talvez gostasse de cavalgar e voc 
at j tem o traje preparado!
- No sei se algum dia poderei pagar tudo o que gastou comigo.
- Por favor, nem pense nisso! Sou eu quem lhe deve e muito! Preciso dizer 
repetidas vezes que traz-la comigo foi algo muito valioso.
O olhar de ambos se encontraram e Warren sentiu vontade de expressar todo 
o seu agradecimento a ela com um beijo. Mas talvez ainda no fosse o 
momento.
Os cavalos exigiam a ateno de Warren e ele se concentrou em dirigi-los. 
Depois disse:
- Agora voc vai ter a primeira impresso de Buckwood. Sei que no ficar 
desapontada.


CAPTULO V

Terminado o funeral, os parentes se despediram. Todos cumprimentavam
Warren pelo noivado e especialmente pela escolha de uma noiva to 
encantadora.
Os elogios feitos a Ndia foram sinceros e efusivos.
Durante o almoo e o jantar do dia anterior, Ndia havia sido muito 
simptica. Dera ateno a todos, conquistando at os mais ranzinzas.
Ndia era reservada, agia com muito tato e boas maneiras, sendo, ao mesmo 
tempo, cativante. No tinha a pose nem a ostentao de Magnlia. Esta 
queria sempre chamar a ateno, principalmente dos homens. E agia assim 
em todas as festas e reunies a que comparecia.
Especialmente com as senhoras mais velhas, muitas vezes consideradas 
maantes,  que Ndia era mais amvel.
Quando todos j haviam partido, Warren atravessou o parque em seu 
faetonte e foi at a casa da me. Encontrou-a tomando ch com Ndia, na 
sala de estar.
- Est um pouco tarde para o ch, querido - disse a me -, mas nada como 
uma xcara de ch bem forte e bem quente para nos reanimar!
- Esteve maravilhosa, mame - disse Warren, se curvando para beij-la -, 
s espero que no tenha sido demais para voc toda essa atividade do dia.
- Senti muito a morte de nosso querido Arthur, mas preferi que no 
ficasse tanto tempo de cama, sofrendo como seu prprio av.
Warren concordou. Sempre odiara a morte lenta e o sofrimento prolongado. 
Se lhe fosse dado o direito de escolher, optaria pela morte em combate ou 
em um acidente. Que Deus o livrasse de ficar preso a um leito, um corpo 
que respirava, mas sem atividade cerebral.
Ainda com o esprito abatido por causa do funeral, ele disse, tentando 
sorrir:
- O que planejaram para esta noite? Depois de todos partirem, a casa est 
muito quieta e sombria.
Agora que Warren era o novo marqus todos esperavam que ele introduzisse 
mudanas e talvez algumas restries aos hbitos de toda a propriedade. 
Ele, porm, pretendia mudar-se para o solar de Buckwood aos poucos, no 
queria aborrecer ningum nem alterar coisa alguma.
Os criados eram antigos e j sabiam bem quais eram suas obrigaes; eram 
perfeitos. O sr. Greyshott administrava tudo com eficincia e Warren no 
pretendia alterar nada. No queria tornar revolto aquele mar calmo.
- Acho melhor voc ficar aqui com Ndia em vez de ir para o solar. 
Pretendo deitar-me cedo. Estou muito cansada.
- Est exausta, no mame? - ele perguntou carinhosamente.
- No tanto. Na verdade os funerais sempre me deixam deprimida. E o fato 
de ver tantos parentes, tantos amigos me deixam excitada e at meio 
zonza.
Ndia sorriu e acrescentou:
- Talvez no fosse to deprimente se todos no usassem roupas pretas. Meu 
pai sempre detestou essa cor to sombria.
Warren recordou o que madame Blanc havia dito: "o luto faz as pessoas 
parecerem um bando de corvos negros".
- Ento eu fico, mame - disse Warren.
- Que bom, querido. A casa no ficar to triste. Warren lembrou-se 
novamente do funeral e de Magnlia.
Apesar de ela no ter ficado no solar aps o "convite" de se retirar, ela 
no voltou para Londres. Por mais incrvel que pudesse parecer, ela foi 
ao enterro do marqus de Buckwood.
Quando o servio fnebre ia comear, ela apareceu na Igreja, entrando 
pela porta lateral; Um dos porteiros recebeu-a e indicou-lhe um lugar em 
um dos bancos reservado  famlia do marqus, pois no havia recebido 
nenhuma ordem em contrrio. Magnlia sentou-se bem atrs de Warren.
Era mais do que evidente que ela queria chamar a ateno, pois chegara 
quando todos j estavam sentados e vestia-se com
elegncia que estava longe de ser chamada discreta. Todos, homens e
mulheres, acharam difcil tirar os olhos dela.
O vestido de Magnlia era ainda mais elegante do que o que havia usado na 
vspera e bem mais trabalhado. Em vez de faz-la parecer triste, a cor 
preta a deixava mais sedutora, e o talhe do vestido realava seu corpo 
escultural. Sobre a cabea ela trazia um pequeno chapu de onde descia um 
vu preto, finssimo.
Quando Magnlia se ajoelhou no banco, logo atrs de Warren, ele pde 
sentir a suave fragrncia que vinha dela. No teve dvidas de que aquela 
mulher jamais perdia a oportunidade de se insinuar.
Durante toda a cerimnia ele sentiu que Magnlia estava com o olhar 
cravado em seus ombros, em seu pescoo, como se o perfurasse. Warren no 
podia ignor-la.
O caixo, carregado por soldados da Corporao do Condado, da qual o 
marqus havia sido coronel, desceu pela nave central da igreja, para ser 
depositado na sepultura da famlia, na prpria igreja.
Logo aps o caixo, vinha Warren, o novo marqus de Buckwood, e depois os 
outros parentes.
Quando Warren se levantou para seguir o fretro, Magnlia se apressou e, 
abrindo caminho entre os familiares, ficou bem prxima a Warren. Ele viu 
que ela carregava um buque de orqudeas brancas.
Quando o caixo foi depositado na sepultura, Magnlia atirou, 
teatralmente, o buque sobre o caixo. Em seguida, colocando as mos sobre 
os olhos, seu corpo estremeceu e parecia que ela ia desmaiar.
Warren, que estava logo ao lado dela, amparou-a, instintivamente, para 
evitar que ela casse dentro da sepultura. Em seguida afastou-a da beira 
da sepultura e, ao faz-lo, sabia que ela estava representando.
Warren tentou se ver livre de Magnlia o mais depressa possvel e deixou-
a aos cuidados de uma das parentas que estava mais prxima.
Ele estava furioso por Magnlia ter tido a audcia no s
de aparecer para o enterro, mas tambm de fazer toda aquela cena.
com certeza, haveria algum comentrio sobre ela nos jornais. E ela 
adoraria!
Voltando ao solar, Warren no ficou surpreso de j l encontrar Magnlia 
bem acomodada em uma poltrona, tendo ao lado uma criada que a fazia 
cheirar um frasco de sais para faz-la voltar a si.
Warren nem quis saber de Magnlia. Passando por ela ouviu-a lamentar a 
morte do marqus. Em voz baixa, mas clara, ela dizia:
- O marqus foi sempre to bondoso para mim. Sentirei tanto a falta dele 
como desta casa que  como o meu segundo lar. No suportarei viver longe 
de Buckwood!
A voz dela era entrecortada por soluos mais do que convincentes. Muitos 
dos presentes, comovidos com a encenao de Magnlia, olhavam indagadores 
para Warren, como se esperassem que ele fosse resolver o problema da
pobre moa.
Depois do almoo Magnlia foi embora e Warren pde respirar aliviado. At
ela partir no faltaram atenes para Magnlia e metade dos homens
presentes foi at a carruagem dela para dizer-lhe adeus.
- Agora no h motivo para essa fingida voltar -disse Warren para si 
mesmo. Teve, porm, um pressentimento de que ela tentaria uma 
reaproximao.
Warren achou que deveria ter pedido para Ndia estar presente quele 
ltimo almoo com os parentes. A presena dela teria sido um lembrete 
constante do noivado de ambos. Mas ; ao se despedir de todos, no deixou 
de insinuar:
- Espero que voltem logo a Buckwood em circunstncias bem mais alegres.
Automaticamente, os parentes respondiam:
- Para as suas bodas?
- Bem, primeiro quero comemorar o noivado. No ser com um baile,
naturalmente. Talvez uma recepo ao ar livre, nos jardins... em agosto.
- Esperamos ansiosos por esse dia! - era a resposta.
86)
Todos os parentes adoravam as festas em Buckwood. Eram memorveis!
Deixando de lado aqueles pensamentos, Warren olhou para Ndia que estava 
 sua frente, do outro lado da mesa de ch. Observou que ela estava linda 
naquele vestido simples, porm com a elegncia que somente a alta costura 
francesa conferia aos trajes femininos.
Mesmo ainda bem magra, Ndia ganhara cor e seus olhos enormes lhe 
emprestavam uma graa que a tornava irresistvel. Ela parecia haver 
capturado em seu semblante a prpria luminosidade e a alegria do sol 
matinal.
- Amanh poderemos visitar algumas fazendas - sugeriu Warren. - Poderemos 
ir a cavalo que  mais rpido.
Ndia no precisou dizer uma palavra para expressar seu entusiasmo.
Foi a me de Warren quem comentou:
- Todos vo ficar encantados em conhecer sua noiva, meu filho. Mas se for 
a uma fazenda ter que ir a todas elas para que o pessoal no fique 
enciumado.
- Sei disso, mame. Eu me lembro que quando visitvamos as fazendas, 
antigamente, os colonos e arrendatrios reclamavam que ficavam muito 
tempo sem ver a senhora.  uma gente muito carinhosa.
- . Sempre tinham um pote de gelia feita em casa ou mel, picles ou 
presunto recm-defumado para nos presentear. Nosso povo sempre foi muito 
amvel e generoso.
Ela se aproximou de Ndia e pondo as mos nos ombros dela, disse:
- Sei que todos vo amar voc, minha filha! Observei como encantou nossos 
parentes e como foi atenciosa para com os mais velhos.
Ndia sorriu.
- Mame me ensinou que uma boa anfitri sempre se preocupa em dar ateno 
a todos.
-  verdade. Mas a maioria dos jovens no se preocupa muito com os que j 
so idosos.
Havia nas palavras da boa senhora a aprovao e um cumprimento por seu 
filho ter escolhido uma moa como Ndia para ser a futura marquesa de 
Buckwood.
Warren se surpreendia com sua me por ter logo gostado de Ndia, o que 
no acontecera com Magnlia.
Quando ele estava servindo sua me de outra xcara de ch, um criado 
entrou na sala trazendo um embrulho em uma salva de prata.
- O que  isso, James? - perguntou lady John.
- Este pacote foi deixado para a condessa, milady. Enquanto falava ele 
estendeu a salva para Ndia, que perguntou surpresa:
- Para mim?
- No pode ser um presente de casamento! - disse Warren sorrindo.
Ndia apanhou o embrulho d salva de prata. Olhou-o muito bem para ver se 
no havia algum engano e viu escrito em letras maisculas:
"PARA A CONDESSA NDIA FERRAIS"
- Abra o embrulho! - disse Warren. - Deve ser um presente de algum dos 
parentes. O que me surpreende  que ficaram generosos to de repente.
- Que  isso, meu filho? - disse lady John, repreendendo o filho. - Todos
sempre o cumularam de presentes e sempre o mimaram. Voc at costumava 
resmungar quando tinha que escrever em agradecimento pelo que recebera.
-  verdade. Estava apenas brincando. Voc sempre me ensinou a apreciar 
todo e qualquer presente. Voc dizia: "A cavalo dado no se olha os 
dentes".
Sua me riu e ambos olharam para o embrulho que acabava de ser desfeito. 
Era uma caixa de bombons.
Eram bombons da Gunter's, uma loja famosa em Berkeley Square, onde Warren 
costumava comprar chocolates e outros doces para sua me.
Agora lady John estava com um comeo de diabete e estava proibida de 
comer qualquer coisa contendo acar.
Ndia olhou primeiro para a caixa e depois para o papel no qual a caixa 
havia sido embrulhada e disse:
- Aqui no diz quem mandou os bombons.
91
- O criado que atendeu a porta deve saber - disse Warren.
Ndia desamarrou a fita que prendia a caixa, abriu-a e disse:
- Parecem deliciosos. Quer um?
- Agora no - respondeu Warren. - Talvez depois do jantar.
- Eu estou proibida de comer chocolates - disse lady John.
- Voc vai comer estes chocolates sozinha, querida.
- Mais tarde provarei um bombom. Acabei de tomar ch
- disse Ndia.
Ela olhou para Warren e ele percebeu que ela ainda achava difcil comer 
muito. Sentia-se satisfeita com um mnimo de alimento.
Quando Ndia ia pr a tampa da caixa novamente, lady John disse:
- Olhem para Bertha! Mas que gulosa!
Desde que Warren chegara  fazenda, os dois ces que haviam pertencido ao 
marqus seguiam-no por toda parte e estavam naquele momento, ao lado 
dele. Um dos ces era um belo spaniel ainda novo. O outro animal era 
Bertha, uma cadela que havia sido campe em seus bons tempos e j estava 
muito velha, com reumatismo e quase cega.
Ndia olhou para Bertha e viu que ela havia ficado sentadinha nas patas 
traseiras e gania como se implorasse que lhe dessem um dos bombons. Vendo 
a surpresa de Ndia, lady John explicou:
- Arthur gostava muito de doces. Por isso estava to gordo. Bertha 
acostumou-se aos doces com seu velho dono.
- Pois ento Bertha vai ser a primeira a provar desses deliciosos 
bombons! - disse Ndia atirando um bombom para a cadela, que o abocanhou 
depressa.
- Olhe! Ela est querendo mais! - disse Ndia.
- Chega. Ela est muito gorda! - disse Warren.
- S mais um - Ndia sorriu e deu outro bombom a Bertha.
Assim que abocanhou o segundo bombom, a cadela comeou a estremecer. Foi 
tudo to rpido que ningum sabia o que estava acontecendo, Bertha caiu e 
rolou no tapete. Cada
msculo de seu corpo se repuxava. De repente, o animal ficou rgido.
- Meu Deus! Ela teve um ataque? - gritou Ndia. Warren ajoelhou-se e ps 
a mo no corao de Bertha.
- Est morta!
- No  possvel! - exclamou lady John. - Como pode ser?
- Ela foi envenenada! - respondeu Warren.
Ele tirou os bombons do colo de Ndia. Depois passou os braos em volta 
da cintura da me, ajudando-a a levantar-se.
-  melhor subir e ir descansar, mame - ele disse. Est acontecendo 
alguma coisa muito desagradvel e no quero que se preocupe. vou mandar 
chamar o veterinrio para examinar Bertha e os bombons.
- Mas  claro que me preocupo! Quero saber de tudo. No esconda nada de 
mim. Quem poderia ser to perverso a ponto
de querer envenenar Ndia?
Warren sabia a resposta, mas era melhor ficar calado. Acompanhou a me 
at o quarto e Ndia os seguiu.
Ndia estava plida e seu corao batia descompassado. O medo, seu 
companheiro frequente durante os ltimos anos, voltava a assombr-la. No 
poderia mesmo fugir.
Ndia achou melhor ir para seu quarto descansar um pouco
e s voltou a ver Warren  hora do jantar.
Enquanto estava no quarto, recostada  cabeceira da cama,
ficou olhando o sol que j ia descendo, anunciando que a tarde logo 
terminaria. As gralhas faziam grande barulho ao voltar para os seus 
abrigos. Ndia no podia esquecer de que quase morrera envenenada. Era 
tudo to terrvel que, mesmo estando calor, ela tremia.
Chocolates envenenados! Quem poderia desejar mat-la? Quem poderia ter 
arquitetado um plano to diablico a no ser aquelas pessoas que h tanto 
tempo assombravam seus sonhos e pensamentos?
- Proteja-me, meu Deus! Livra-me de morrer como a pobre Bertha - ela 
rezava. - Gostaria de viver um pouco mais!
H poucos dias ela quisera pr fim  vida e agora ansiava tanto por 
viver, pois afinal estava cercada de compreenso e
carinho. Devia tudo aquilo a Warren! Ele a havia tirado da sua vida 
miservel para aquele paraso que era Buckwood.
Ser que continuaria a viver aterrorizada? Lembrando-se novamente dos 
bombons, a cor fugiu-lhe do rosto. Seus olhos ficaram maiores, mais 
escuros e o espectro do medo estava impresso neles.
A criada veio ajudar Ndia a trocar-se para o jantar e a encontrou 
abatida.
Depois de pronta, Ndia desceu e foi at a sala de estar, onde encontrou 
Warren. Ele estava de p junto  janela, com uma taa de champanhe na 
mo. Vendo Ndia caminhando em sua direo ele avaliou o que ela estava 
sentindo. Serviu-a ento de uma taa e ps mais um pouco da bebida na 
sua,
- O que foi que... descobriu? - ela perguntou.
- O que j suspeitava. Algum injetou um veneno violento em cada um dos 
bombons. Foi tudo muito bem-feito. Ningum poderia suspeitar de nada a 
no ser quando fosse tarde demais.
Ndia estremeceu e disse:
- Preciso ir embora! Eles vo me encontrar... voltaro novamente!
Warren viu que Ndia no falava coisa com coisa. Parecia perturbada. Ele 
perguntou atnito:
- Eles? Quem? De que est falando?
Ndia fitou-o com os olhos bem abertos, mas o olhar vazio. Warren notou 
que ela estava perturbada e disse com calma:
- Os bombons foram mandados pela srta. Keane. Ndia olhou espantada para 
ele e perguntou:
- Tem certeza de que foi mesmo... ela?
- Certeza absoluta.
Ndia respirou fundo. Enfo, esforando-se para sua voz sair normal, ela 
perguntou:
- Mas... por que ela iria querer envenenar-me?
- Pensei que fosse bvio!
- Sim! Claro... como sou idiota! Ela disse que... voc pertencia a ela e 
que nunca me deixaria ter... voc.
- Agora conte-me o que ela lhe disse.
- Ela foi muito agressiva e disse que eu estava tentando... agarrar voc.
- O que voc respondeu?
- Disse que estvamos noivos.
- Como ela reagiu?
- Ficou zangada e disse: "Pois ento deixe-me adverti-la, voc no vai se 
casar com ele. Nem tente fazer isso, seno ir arrepender-se 
amargamente". 
Enquanto falava, Ndia viu que fora mesmo uma tonta em no perceber que a
caixa de bombons havia sido um "presente" de Magnlia. Ao mesmo tempo,
como poderia lhe passar pela cabea que uma elegante jovem inglesa 
pudesse agir daquela maneira? E como poderia pensar que corria risco de 
vida, estando em uma casa de campo, na Inglaterra, com tantos criados 
para proteg-la e com o marqus ao seu lado? Era mesmo incrvel.
- S posso dizer que sinto muito - disse Warren. - Foi minha culpa. 
Pensei na possibilidade de a srta. Keane querer vingar-se de mim e at 
esperava que sua vingana fosse execrvel. Porm, jamais suspeitei que 
ela tentasse assassinar voc!
- Talvez fosse melhor... voc se casar com ela. Afinal voc a amou um 
dia.
Pela primeira vez, Ndia sentiu um aperto no corao s em pensar que 
Warren poderia se casar com outra mulher. Ainda mais com um tipo como 
Magnlia. No! Um homem fino, to nobre, to magnnimo, jamais poderia 
desperdiar sua vida casando-se com uma mulher to baixa, capaz de matar 
algum que se interpusesse em seu caminho.
Ndia olhou para Warren e viu que ele estava de semblante carrancudo, os 
sobrolhos franzidos e pde medir a extenso de sua raiva. Ento ele 
disse:
- Eu no tentaria mover um dedo para livrar Magnlia da forca, que  para 
onde ela merecia ir por tentativa de assassinato! Ela s no conseguiu o 
seu intento por causa da pobre Bertha.
- O veterinrio no pde salv-la?
- No. Foi uma morte fulminante. O mesmo aconteceria com voc se comesse 
um daqueles bombons.
Os lbios de Warren se comprimiram e em seguida ele disse:
- Magnlia no havia previsto que eu estaria aqui. Naturalmente
95
imaginou que eu ficaria no solar at mais tarde. Ela sabe que mame
no pode comer doces de espcie alguma, assim s voc comeria os bombons. 
 um milagre que esteja viva!
Instintivamente, Ndia se aproximou de Warren e, pegando nas mos dele, 
disse:
- Estou assustada! Felizmente voc no comeu nenhum dos bombons!
- A pobre Bertha foi quem nos salvou. Devemos agradecer a Deus por isso! 
J dei ordens para que Bertha seja sepultada no cemitrio de ces, onde 
jazem todos os ces que nos pertenceram.
- Tambm temos um cemitrio para nossos ces - disse Ndia, sorrindo pela 
primeira vez desde que entrara naquela sala. - Quando eu era criana, 
costumava pr um osso no tmulo de meu cachorrinho, achando que ele iria 
roer o osso quando no houvesse ningum por perto.
- Onde era esse cemitrio? - perguntou Warren. Ndia percebeu 
imediatamente que havia falado demais e
resolveu mudar de assunto. Ela tirou suas mos das de Warren e disse 
apenas:
- Estamos aqui falando sobre a pobre Bertha e gostaria de ir amanh ao 
cemitrio onde ela vai ser enterrada.
- Est bem. Mas voc estava falando sobre seu cozinho insistiu Warren. - 
De que raa era ele?
- Prefiro no falar sobre isso... se no se importa. Diga-me o que devo
fazer para ficar a salvo da srta. Keane. Talvez eu deva ir-me... embora.
Ndia sabia o quanto seria doloroso se afastar dali. No s pela bondade
de todos, mas principalmente pelo marqus.
Como se soubesse exatamente o que ela estava sentindo, Warren se 
aproximou e segurou a mo dela, dizendo:
- Oua, Ndia, prometo que a protegerei e cuidarei muito bem de voc. vou 
tomar as devidas providncias para que no seja molestada.
Ele sentiu a mo dela tremendo e perguntou:
- Confia em mim... ainda?
- Sabe que confio... e muito.
96
Ndia ergueu a cabea e o olhar de ambos se encontraram. No havia 
necessidade de palavras para expressar o que ambos sentiam.
Ao jantar, Ndia tentou comer um pouco de cada prato que fora servido.
Depois ela e o marqus atravessaram a sala de estar e desceram at o
jardim. Os ltimos raios do sol agonizante tingia o horizonte de tons
purpreos. Um delicioso perfume enchia o ar. Na paz e na beleza daquela 
cena crepuscular, era difcil crer que pudesse haver perigo e dio no 
universo. Os dois foram olhar o velho relgio de sol, onde havia figuras 
esculpidas, h sculos, ha pedra vetusta e j gasta.
- S desejo que seja feliz aqui - disse Warren.
- Sou feliz! J no temo a srta. Keane... nem qualquer outra coisa... ou
pessoa.
O modo como ela falou fez Warren pensar que ela se referia a outros
temores, que, com certeza, a perseguiram num passado no muito distante.
Ele gostaria tanto de pedir a Ndia que confiasse nele e que lhe contasse 
a verdade sobre ela. Precisava saber de tudo para
ajud-la.
Ndia estava adorvel, ao mesmo tempo parecia to frgil e
imaterial  pouca luz daquele fim de tarde, comeo de noite.
Era um absurdo que uma pessoa assim indefesa inspirasse uma
vingana to dramtica e to vil.
- No tive a oportunidade de lhe dizer - Warren reiniciou a conversa - 
que ontem voc esteve encantadora. Todos ficaram cativados por sua
gentileza e sua ateno. Vieram cumprimentar-me por ter tido a felicidade
de encontrar uma moa  altura de reinar em Buckwood.
- Eles  que foram muito amveis. Sua me, ento, tem sido maravilhosa!
- Para mame voc tem todas as qualidades para ser a nora perfeita.
- Tenho certeza de que ela ficou muito contrariada com o que aconteceu.
- Quando contei a mame que a responsvel por tudo havia sido Magnlia, 
ela no ficou surpresa.
97
- Tenho certeza de que, como eu, lady John teme que a srta. Keanepossa
tentar ferir voc novamente.
- Por isso  que preciso de voc.
- Poderei mesmo ajud-lo? Cheguei a pensar que talvez fosse melhor eu... 
partir.
- Seria um grande erro. Agora mais do que nunca voc precisa ficar ao meu 
lado e representar o papel de minha noiva. Preciso de voc at ter 
certeza de que Magnlia no vai mais tentar nenhum de seus truques.
Ndia pareceu pensativa.
- Estarei, talvez, exigindo muito de voc? Afinal j passou por tantos 
maus momentos! No sei se deveria pedir para voc arriscar sua vida por 
causa de uma mulher ciumenta e mentalmente perturbada.
Ndia sorriu o mais lindo dos sorrisos e Warren percebeu como aquela 
mocinha delicada era corajosa.
- Sei que ao seu lado estou protegida.
- Sabe que est. Por favor, Ndia, fique! Voc poder ajudar-me a 
melhorar a vida de todo o pessoal que est sob a minha responsabilidade. 
Planejo uma poro de coisas para eles e j percebi que voc tem muita 
sensibilidade.
- Est me lisonjeando. Mas  claro que voc pode fazer tudo isso sem 
minha ajuda! A verdade  que estou adorando ficar aqui.
com um sorriso que as mulheres achavam irresistvel, Warren disse:
- timo! Pois ento no ir embora. Ficarei magoado se pensar outra vez 
em me deixar.
- No pensarei nisso. Prometo.
- Agora acho melhor voc subir. Talvez seja cedo para ir para a cama. Mas
deve descansar bastante. Lembre-se de que uma boa noite de sono far
maravilhas para sua beleza. E coma bem. Ficar melhor com uns quilinhos a
mais.
Ndia riu alto e seu riso cristalino pareceu ecoar como msica na
quietude do jardim.
- Mesmo vestindo estas roupas maravilhosas, devo assustlo com a minha
magreza. Estou me esforando para comer bastante. D-me tempo.
98
- No  s tempo que quero lhe dar. Espere at eu ir para Londres.
Ndia no era como as outras mulheres que s queriam saber de presentes. 
Um tanto encabulada ela disse:
- Por favor... aceitei todos os lindos vestidos que me deu porque no 
poderia aparecer diante de seus amigos e de sua famlia vestida com 
aqueles... farrapos. Mas, sinceramente, ficarei at aborrecida se comear 
a me encher de presentes.
- Mas todo noivo d presentes para sua noiva.
- No!
A voz dela foi to firme que Warren ficou surpreso. Antes que ele pudesse 
apresentar qualquer outro argumento para convenc-la, ela explicou:
- Quando pediu-me para ajud-lo, voc disse que eu parecia uma lady. Pois 
devo agir como tal. No aceitarei, portanto, nada alm do necessrio para 
representar o papel a que me propus. Por favor, no me deixe embaraada.
A altivez com que ela disse aquilo impressionou Warren. Nada lhe restou 
seno capitular.
- Muito bem, Ndia. Se  assim... Voc  uma jovem diferente. Devo 
reconhecer que est sempre me surpreendendo. Admiro e respeito seu 
orgulho e... sua coragem.
Ndia enrubesceu no s pelas palavras, mas pelo modo como foram ditas.
Ela estava de olhos baixos e Warren viu que os longos clios dela 
tremiam. Ele sabia que Ndia era tmida demais para encar-lo.
Voltando a seus pensamentos, Warren cismava em como havia sido afortunado 
em encontrar aquela garota to deliciosamente especial, encantadora, 
terna e suave. Exatamente o oposto de Magnlia.
99

CAPTULO VI

Ndia admirava os quadros e outros objetos de arte que enfeitavam a linda 
sala de visitas.
Todas as vezes que ela olhava principalmente para as telas, relembrava a 
histria de cada uma, querendo conservar na memria todos os detalhes.
Eram telas famosas e significavam muito para Warren e sua famlia.
- Tudo que v aqui - dizia Warren -  considerado um tesouro, pois  
parte da vida de meus pais, avs e a minha tambm.
- Sei que foi tudo escolhido com amor.
Ele sorriu, pensando que era bem prprio de Ndia fazer uma observao 
daquelas.
Cada dia que passava era para ela um novo encantamento. Warren sabia que, 
se ela sofria com lembranas do passado, no deixava transparecer. Era 
evidente, porm, que, trazendo-a para Buckwood, a havia arrancado do 
inferno de uma vida de horrores e privaes para um universo celestial, 
de paz bendita, cheio de luz.
- Mal posso me lembrar de que um dia pensei em acabar com minha vida. E 
agora estou aqui neste paraso - ela dizia.
Como sempre acontecia nos momentos em que exultava com sua nova vida, 
Ndia sentia uma pontada de dor ao pensar que aquela tranquilidade 
poderia um dia terminar.
Ali, em companhia de seus benfeitores, ela dormia tranquila e, se 
acordava no meio da noite, no era sobressaltada, mas para pensar que a 
manh seguinte seria to ou mais feliz que a anterior.
Porm, algum dia Warren no teria mais necessidade de sua presena e seus 
dias de paz acabariam.
Impondo a si mesma uma disciplina, ela evitava pensar no sofrimento que 
seria viver longe dali e principalmente longe de
Warren. Ento, usufrua o prazer que cada dia tinha para lhe oferecer.
Ndia era feliz a cada minuto, cada hora, sem perder o menor momento de 
felicidade que podia desfrutar.
Olhando a tela de sir Joshua Reynolds sobre a cornija da lareira, ela no 
perdia nenhum detalhe e em qualquer lugar que pudesse estar, no futuro, 
haveria de se lembrar com carinho daquela cena ali reproduzida com
maestria.
O mesmo acontecia com a tela que retratava a cena familiar com os 
ancestrais de Warren tendo o solar de Buckwood ao fundo.
- Warren tem tudo - ela pensou.
No mesmo instante, sentiu-se envergonhada de haver sentido aquela 
pontinha de inveja de um homem to bom. Mas reconhecia que era difcil 
sobreviver sem ter pelo menos um teto para morar.
Olhando novamente para o quadro, ela desejou um dia poder ser retratada. 
Era de certa forma um modo de se tornar imortal. Em sua fantasia ela se 
imaginava pintada por um pintor famoso. O artista fixaria a imagem de seu 
corpo na tela e ela daria quele corpo sem vida seu corao e sua alma.
Por uns momentos, Ndia brincou com sua fantasia e imaginava o que 
gostaria de ter no fundo da tela. Como no possua uma casa, talvez fosse 
mais apropriado ser pintada em um jardim. Pensando nisso foi at o jardim 
e ficou parada ao lado do relgio de sol. Depois tocou as figuras j 
gastas, gravadas na pedra.
De repente, ela ouviu um som estranho que vinha do porto que havia no 
muro de tijolos vermelhos. Esse porto dava para o pomar, onde havia 
macieiras carregadas, cujos frutos comeavam a ganhar a cor vermelha, j 
quase amadurecidos.
Ndia ficou imaginando que barulho seria aquele; foi descendo o caminho 
pavimentado com pedras que era ladeado por uma cerca viva bem aparada e 
chegou at o porto, to antigo como o muro. Ficou parada junto ao porto 
e, como no ouviu mais nada, abriu-o cuidadosamente e deu uns passos, 
entrando, intrigada, no pomar.
De repente, ela deu um grito de terror, pois algo escuro e pesado caiu 
sobre sua cabea e tudo escureceu.
Antes que pudesse lutar, pelo menos para se defender, sentiu que estava 
sendo carregada dali com muita pressa. No podia ver para onde ia nem 
quem a levava.
Warren estava na biblioteca, no solar, pondo uma pilha de correspondncia 
em dia. A maioria fora mandada pelo sr. Greyshott e havia tambm uns 
papis que precisava reler e assinar.
A maioria desses papis eram contratos de arrendamento de terra, que, com 
a doena, o tio no pudera legalizar. Havia tambm muitos relatrios 
mandados pelo administrador da fazenda de Devonshire. Tudo precisava ser 
lido cuidadosamente.
Enquanto lia tudo com ateno e ia assinando o que era preciso, Warren 
pensou que deveria visitar as outras propriedades, inclusive uma em 
Newmarket, onde seu tio criava a maior parte de seus cavalos de raa.
Mas no poderia ir l to cedo. Havia muito o que fazer em Buckwood. Alm 
de todos os encargos que passaram para seus ombros ao herdar o ttulo e 
os bens do tio, Warren recebera uma poro de visitas de pessoas 
influentes do Condado, convidando-o para ocupar diversas posies -de 
importncia s quais ele no pde se esquivar.
Acabava de ler uma carta enviada por um dos procuradores do tio, quando o 
sr. Greyshott entrou na biblioteca.
- Acabo de falar com o veterinrio, milorde. Ele confirmou que o veneno 
injetado nos bombons veio daqui do solar - disse o sr. Greyshott.
O marqus franziu as sobrancelhas. Ele havia ficado meio ctico quando o 
sr. Greyshott lhe dissera sobre suas suspeitas de que o veneno que matara 
Bertha fora conseguido ali mesmo em Buckwood.
O velho marqus detestava mandar atirar em cavalos ou cachorros que 
estavam muito velhos ou com doena incurvel. Ele mesmo cuidava de "p-
los para dormir". Acabava assim o sofrimento dos animais que estimava.
Fora o prprio veterinrio quem conseguira para o marqus um veneno 
forte, de ao instantnea, que no fazia o animal sofrer.
O que intrigou Warren, quando o secretrio falou de suas suspeitas, foi 
como poderia Magnlia ter encontrado o tal veneno.
O sr. Greyshott, a quem Warren confiara o segredo dos bombons 
envenenados, explicou que havia reconhecido a caixa com o timbre da loja
Gunter's.
Fora o prprio marqus quem fizera uma encomenda de bombons e chocolates 
antes de ficar doente.
Quanto ao veneno, o secretrio estava quase que certo de que havia sido 
tirado de um armrio que era mantido sempre a chave e que ficava no 
depsito de armas e munies. Ningum entrava ali sem permisso explcita 
do marqus.
- Como poderia a srta. Keane saber disso? - perguntou Warren.
- Imagino que seu primo tenha falado sobre isso. Ou talvez o prprio 
marqus... Lembro-me de que uma vez o marqus abreviou a agonia de um dos 
ces que estava com uma doena incurvel na garganta. Nesta poca a srta. 
Keane estava hospedada aqui.
- Suponho que ela tinha pego o veneno quando lhe pedi para deixar 
Buckwood.
- Realmente, o armrio foi forado. No havia mais nada a dizer.
O sr. Greyshott entregou o relatrio sobre a autpsia que Warren havia 
solicitado. No havia ali informao alguma que ele j no soubesse. 
Pondo o relatrio de lado, comeou a conversar com o secretrio sobre 
outros assuntos pertinentes a Buckwood e s outras propriedades. Antes de 
sair o sr. Greyshott disse:
- Voltarei dentro de uns trinta minutos para apanhar esses papis, 
milorde.
O marqus retomou seu servio.
Algumas das cartas eram muito longas e Warren ficou absorto, tentando 
terminar tudo at o secretrio voltar.
Alguns minutos mais tarde a porta abriu-se novamente e Warren, mesmo sem 
se voltar, disse:
- J voltou, Greyshott? Ainda no terminei!
No houve resposta; ele virou-se e ficou rgido. Era Magnlia
101
quem via  sua frente. Ela estava estonteantemente linda e no mais
se trajava de preto.
Ela usava um lindssimo vestido de chiffon cor-de-rosa, enfeitado com 
rendas. O chapu, da mesma cor do vestido, tinha aba larga e era 
enfeitado com flores e fitas.
Warren ficou parado, olhando para ela como se estivesse hipnotizado. 
Ergueu-se lentamente da poltrona onde estava sentado, pondo-se em guarda.
Magnlia, por sua vez, caminhou para ele sem pressa, exibindo-se para seu 
ex-noivo.
S quando ela chegou bem perto, Warren perguntou:
- O que est fazendo aqui? Sabe muito bem que no tenho o menor desejo de 
v-la.
- Mas eu tenho o maior desejo do mundo de v-lo, querido! E o 
aconselharia a ouvir com ateno o que tenho para lhe dizer.
- No quero ouvir coisa nenhuma! No temos nada mais a dizer um ao outro. 
- V embora e deixe-me em paz!
Ele sentou-se novamente e olhou para Magnlia que parecia disposta a no 
sair dali. Warren pensou se deveria ou no acus-la de tentativa de 
assassinato.
Magnlia olhava para ele de maneira sedutora. Ele no podia ignorar 
aquele rosto maravilhoso semivelado pelos longos clios.
O que mais impressionou Warren foi o lampejo de triunfo que viu no olhar 
daquela linda mulher  sua frente.
Magnlia segurava uma folha de papel, que ps sobre a escrivaninha.
com a mesma maneira sedutora, ela tirou as longas luvas e estendeu a mo 
esquerda dizendo:
- Est vendo o que estou usando?
Ainda perturbado pela presena inesperada e pelo comportamento estranho 
de Magnlia, Warren olhou para a mo dela e viu, no dedo mdio, a aliana 
que ele havia dado a ela. Era uma jia montada em ouro, com diamantes em 
toda a volta e fora comprada na Bond Street. As palavras que ele dissera 
ao pr a aliana no dedo de Magnlia vieram-lhe  mente:
"Como  impossvel ficarmos noivos oficialmente ou nos casarmos no 
momento, esta aliana simbolizar que voc est unida a mim por toda a 
eternidade".
At mesmo o que ela respondera ele evocava:
"Oh, querido, isso  tudo que mais desejo na vida".
"No deixarei que se afaste de mim! Como no vai usar esta aliana 
durante o dia at podermos anunciar nosso noivado, use-a  noite e sonhe 
comigo!"
"Sabe que farei isso! "
O beijo que os dois ento trocaram para selar aquele compromisso foi 
apaixonado, possessivo e ardente, a ponto de ambos ficarem sem flego.
Agora a simples lembrana daquele momento fez Warren sentir dio e nojo e 
ele disse asperamente:
- J disse e repito: V embora! Se no sair imediatamente, vou tocar 
chamando os criados para tir-la daqui.
- Duvido que tenha coragem de fazer isso depois de ouvir o que tenho para 
lhe dizer.
Ela tornou a apanhar o papel que havia posto sobre a escrivaninha e disse 
com uma nota estranha na voz:
- Esta  uma licena de casamento. Nosso casamento! Esto aqui: o seu 
nome e o meu!
- O qu? com mil demnios, o que est dizendo?
- Est tudo preparado para nos casarmos imediatamente. O vigrio est na 
casa paroquial e poder celebrar a cerimnia.
- Ah, s posso imaginar que enlouqueceu! Prefiro casar-me com o prprio 
demnio do que com voc!
Warren estava cada vez mais exaltado, completamente enfurecido, mas 
Magnlia permanecia calma e indiferente.
Estendendo o brao, ela ps novamente a licena especial de casamento em 
frente a Warren, dizendo com voz pausada:
- Se no se casar comigo, a jovem que voc chama de sua "noiva" morrer!
Warren ficou petrificado. Reunindo todas as suas foras e procurando 
ficar calmo falou com voz baixa e controlada:
- Estou muito interessado em saber exatamente o que quer dizer com isso.
- Quero dizer que Ndia foi levada para um lugar onde jamais poder 
encontr-la. A no ser, claro, que se case comigo!
105
Por uns segundos fez-se um silncio oprimente.
- No acredito em voc!
Magnlia olhou para ele por baixo dos longos clios e sorriu. Aquele 
sorriso dizia a Warren que algo terrvel estava mesmo acontecendo a 
Ndia.
Sua sedutora ex-noiva no estava blefando.
Erguendo o rosto de maneira a realar seu lindo pescoo de cisne, 
Magnlia explicou:
- A jovenzinha foi capturada no jardim da casa de sua me e levada para 
um esconderijo onde no poder ser encontrada, nem mesmo por algum to 
astuto como voc, querido marqus de Buckwood.
Ela deu uns passos estudados na frente de Warren como que para exibir a 
flexibilidade e beleza de seu corpo e continuou:
- E se por acaso chegar a descobrir onde a noivinha est escondida, ser 
tarde demais. Ela ter morrido de fome e sede.
Warren susteve a respirao. No podia acreditar no que ouvia.
Ele olhou para a licena especial de casamento e viu que estava 
devidamente preenchida com o seu nome e o de Magnlia.
Ele conhecia bem o carter daquela vbora e sabia que ela estava 
exultante por t-lo posto contra a parede. Ela acreditava que ele no 
teria outra alternativa a no ser aceitar seus termos para evitar a morte 
de Ndia.
Depois de uns segundos, Warren disse calmamente:
-  claro que poderemos encontrar uma soluo melhor que essa. Voc 
ignora que o que est fazendo  chantagem criminal?
Magnlia riu.
- Lindas palavras! Elas significam que s h uma sada para voc: casar 
comigo, meu adorado!
Warren queria gritar, berrar para convenc-la de que nada, nem ningum o 
foraria a despos-la.
No mesmo instante viu o rosto de Ndia, como na noite em que a impedira 
de atirar-se ao Sena.
Naquela noite ele percebera que ela passava fome. Naqueles cinco dias que 
passara em Buckwood as marcas das privaes comeavam a desaparecer a 
olhos vistos.
106
Ndia ganhava nova beleza. O queixo ficava menos pontudo, os ossos do
pulso menos proeminentes, o corpo mais cheinho.
O riso era-lhe agora mais fcil. Warren mal podia reconhecer nela a pobre 
garota assustada que queria se matar.
Apesar de ela estar se recuperando, pensava Warren, uma segunda dieta de 
fome a mataria.
Interrompendo os pensamentos dele, Magnlia disse com uma nota de triunfo 
na voz:
- No adianta ficar a pensando, Warren! Por mais esperto que seja, eu 
venci desta vez!
Ele continuou calado e ela acrescentou:
- Quando estivermos casados, querido, serei tudo o que espera de uma 
esposa. Serei maravilhosa como mulher e como amante. Ningum pode ser 
mais ardente que eu! E voc tambm sempre foi ardente ao meu lado. Meu 
crebro pode desejar honras e ttulos, mas meu corpo sempre ansiou pelo 
seu corpo. Vamos ser muito felizes!
Depois de dizer tudo aquilo percebeu que Warren estava distante.
- Diga logo onde est Ndia! - ele bradou.
- Claro que direi! Assim que estivermos casados. Vamos agora para a 
igreja. O seu cocheiro nos seguir com a sua carruagem. Assim que voc 
colocar esta aliana no meu dedo, mandaremos o cocheiro ir buscar Ndia. 
Mas digo-lhe desde j: quero-a longe de minha vista!
O tom com que ela dizia aquelas palavras fez Warren avaliar a intensidade 
do dio que ela nutria pela pobre Ndia. Ele certificou-se de que no 
havia outra alternativa seno fazer o que Magnlia exigia.
Antes de se dar por vencido ele olhou mais uma vez para a licena 
especial de casamento, tentando desesperadamente achar uma sada. 
Ocorreu-lhe que ele poderia tocar chamando criados. Depois mandaria dar 
uma busca geral para encontrar Ndia. Mas, se fizesse isso, poderia haver 
um escndalo e sair at notcias nos jornais. Naquele momento o que ele 
menos queria era publicidade.
Tambm seria difcil encontrar Ndia e se a procura demorasse muito, ela 
poderia at mesmo morrer, como ameaara
Magnlia. Alm disso, havia s em Buckwood cinco mil acres de terra. E 
quem podia garantir que Ndia estaria ali?
Abandonando aquela ideia, Warren tentou pensar em outro plano. Ento 
olhou nos objetos que havia sobre a escrivaninha.
Havia um mata-borro, ao lado dele, um grande tinteiro de ouro, um porta-
canetas com diversas canetas, uma rgua, uma tesoura e um abridor de 
cartas. Eram todos objetos valiosssimos com o braso de Buckwood, em 
ouro.
O crebro de Warren trabalhava febrilmente. Ele notou que o abridor de 
cartas era longo e afiado, portanto serviria para o plano que ele tinha 
em mente.
- D-me sua mo - disse ele, estendendo a sua mo para Magnlia.
Ela no pareceu surpresa e ps sua mo na dele. A aliana estava ali 
naquela mo. Ela olhava sorrindo para Warren. Subitamente, ela deu um 
grito de dor. Warren havia cortado as costas da mo dela com o abridor de 
cartas.
Ela olhava espantada para o talho que estava sangrando. Quis tirar sua 
mo da de Warren, mas ele segurou-a firmemente.
- Como ousa fazer uma coisa dessas? Voc cortou minha mo! - ela berrou. 
- Est louco?
- Voc ainda no viu nada se no contar depressinha onde escondeu Ndia. 
Ah! ento sim! vou machuc-la muito mais.
- Ai minha mo! Est sangrando muito!
Warren viu o sangue escorrendo e manchando a mo dele tambm.
Olhando com desprezo para Magnlia, ele disse calmamente:
- Sem dvida, foi um corte e tanto. Vai ficar uma cicatriz muito feia! Se 
no disser imediatamente o que desejo saber, vou deixar duas cicatrizes 
em seu rosto, uma de cada lado.
- Voc no ousaria!
Apesar de as palavras dela serem desafiadoras, ele viu o horror estampado 
nos olhos dela.
- Voc foi longe demais! J me fez perder o controle! No hesitarei em 
desfigur-la. Como ? Vai falar ou no vai?
Ele ergueu o abridor de cartas e Magnlia pde ver a longa ponta, quase 
como um estilete, virada para ela. Tentou lutar
eom Warren, mas mal pde se mexer, o pulso dele era de ao. Magnlia se 
rendeu.
- Ela est na mina de ardsia - ela disse emburrada.
- No est mentindo?
- juro que no!
- Se estiver mentindo, no duvide que a encontrarei e vou cumprir a 
ameaa que lhe fiz. No se iluda! Vai ficar to desfigurada que jamais 
poder, com sua beleza, tapear os tolos que ficam apaixonados por voc e 
no vem a torpeza de seu carter!
Ao acabar de dizer isso Warren soltou Magnlia e, como ela estava puxando 
a mo para se libertar dele, ela oscilou e quase caiu. Warren atirou o 
abridor de cartas no cho e saiu rapidamente da biblioteca, batendo a 
porta com fora.
Os dois homens que haviam carregado Ndia do jardim colocaram-na em uma 
carruagem que partiu imediatamente.
Ndia sentiu que havia sido jogada no assento da carruagem e achava que 
os dois homens estavam sentados em frente a ela, mas no podia ver nada. 
Um cobertor cobria sua cabea, chegando at aos joelhos.
O corpo de Ndia tremia, sua boca e seus lbios estavam secos. Tinha 
vontade de gritar, mas pensou que os homens poderiam bater nela.
Aqueles homens deviam ser os mesmos que a haviam perseguido juntamente 
com sua me por toda a Europa. Ela comeou a rezar para morrer logo, 
assim seu sofrimento acabaria de vez.
No suportaria o que estava para vir. Se sobrevivesse s torturas 
ficaria, certamente, louca.
- Quero morrer! - ela rezava em seu desespero. Ao mesmo tempo se lembrava 
de Warren.
- Salve-me! Por favor, salve-me! S voc pode fazer isso por mim!
Mas nem Warren poderia salv-la. Precisava achar um modo de se matar 
antes que aqueles homens a fizessem morrer em lenta agonia.
Estava to assustada que comeou a chorar e os dentes batiam de terror.
Ento ela escutou um dos homens dizendo ao outro, em mau ingls:
- T longe ainda?
- No. Est perto.
Ndia respirou aliviada, aqueles homens no eram quem ela pensava que 
fossem. Deviam t-la raptado a mando de Magnlia Keane.
No deixava de ser assustador, mas no to terrvel como ela pensara h 
alguns minutos.
Mais do que nunca, ela teve certeza de que Warren haveria de achar um 
modo de vir salv-la.
To certa ela estava que se concentrou em fazer oraes dirigidas para 
ele, como se o pensamento pudesse ter asas e ir at onde Warren estava.
- Salve-me! Salve-me! - repetia mentalmente, sem cessar. Mais tranquila, 
ela parecia ver Warren captando seu apelo,
os olhos cinzentos dele assegurando-lhe que no tardaria em ir ao seu 
socorro.
Ali, naquele momento, quase sufocada naquela escurido, Ndia teve a 
certeza de que amava Warren.
Desde o princpio o amara, mas s agora se dava conta disso.
Ela agora sabia por que sentia uma alegria imensa quando cavalgava ao 
lado dele e quando conversavam. Quando eles se encontravam o corao dela 
pulsava; pensava que era s porque ele era forte e bonito. Agora sabia 
que era muito mais que isso.
- Amo Warren! Mas de que me adianta se sou para ele apenas algum que 
ele contratou para ajud-lo a fugir de uma mulher linda, mas perigosa,
m, assassina!
Agora ela comeou a fazer uma prece silenciosa para agradecer a Deus por
livrar Warren de se casar com uma mulher terrvel como Magnlia.
Como Deus os havia protegido! Livrara-o de se casar com Magnlia e 
livrara-os de morrerem envenenados.
Agora ela estava ali novamente, vtima dos planos de Magnlia. Parecia 
que a srta. Keane no costumava desistir facilmente.
Ndia tinha f em que seria salva novamente. Reunindo suas foras ela
gritou:
- Salve-me! Salve-me!
Imediatamente ela sentiu um pavor imenso. Os dois homens poderiam mat-
la. Poderiam atirar nela ou cravar-lhe um punhal antes que algum pudesse 
vir em seu socorro.
Mas como era muito inteligente logo imaginou que se os homens quisessem 
mat-la o teriam feito l mesmo no pomar. Poderiam at afog-la no lago 
que no ficava longe. Mas no haviam feito nada disso. Naturalmente 
queriam-na viva.
Ela pensou na possibilidade de quererem escond-la em algum poo ou outro 
lugar abandonado. Um pavor percorreu-lhe a espinha ao pensar que seria 
abandonada em um lugar qualquer para morrer de sede e fome.
As perspectivas eram todas negras. Mas Ndia no perdia a esperana de 
que Warren a encontrasse nem que fosse no ltimo instante. Deus os 
ajudaria. O bem triunfaria sobre o mal. O amor sobre o dio.
Ela no estava proibida de pensar nem de rezar e era o que fazia.
Ndia confiava em Deus. Ele estava do lado dela e de Warren. Magnlia, 
que representava o mal, seria derrotada.
A carruagem parou e ela ouviu os homens conversando entre si:
- Chegamos! No tenha pressa. Vamos abrir a porta primeiro.
Ndia ouviu os dois homens descendo da carruagem.
Durante um certo tempo que pareceu prolongado, ela ouviu apenas um tinido 
de metal dos arreios, pois um cavalo parecia impaciente. Depois o 
cocheiro limpou a garganta emitindo um som spero.
Ndia pensava em se livrar pelo menos do cobertor que cobria sua cabea e 
ia at os joelhos, mas estava bem amarrada.
Se ela pudesse se desvencilhar do cobertor, sairia devagarinho da 
carruagem. Sentiu ento um calafrio ao imaginar que
111
seria descoberta pelo cocheiro; ele tocaria a buzina dando o alarme e ela 
no poderia ir muito longe.
A seria pior. Eles bateriam nela sem piedade e a deixariam inconsciente.
- Estou to apavorada, meu Deus! Oh, meu Deus, valei-me!
- ela murmurou, trmula.
Novamente chamou por Warren:
- Salve-me! Amo voc, Warren! Oh... salve-me!
Ela repetiu essas palavras como em prece, muitas e muitas vezes.
Em meio s oraes, um pensamento louco passou-lhe pela cabea. Magnlia 
poderia estar preparando um ardil sujo e talvez conseguisse de um modo 
ou de outro obrigar Warren a se casar com ela. Ele estaria perdido se
isso acontecesse.
- Pode-se esperar tudo de uma mulher impiedosa e louca como Magnlia - 
Ndia murmurou.
De repente, o corao dela se apertou ao ouvir vozes a distncia. Eram os 
dois homens que voltavam.
Um deles a arrancou da carruagem e os dois a carregaram para um lugar que 
ela percebeu ser uma descida bem ngreme. O solo era bem irregular; 
parecia que os homens andavam sobre pedras ou montes de terra. Ela teve a 
impresso de que os dois iam deix-la cair.
Afinal, a descida terminou e eles andaram em um terreno plano.
- Cuidado! Olha a cabea! - disse um dos homens. Ndia sentiu que eles se 
abaixaram, portanto devia haver
uma passagem muito baixa ali. Talvez estivessem em um tnel.
Sem que Ndia esperasse, eles a puseram no cho to bruscamente que ela 
se machucou.
Em seguida ouviu os passos dos dois homens se afastando. Parecia que o 
solo ali era rochoso.
A batida de uma porta ecoou na distncia, seguida do barulho de metal. 
Estavam trancando a porta. Mais uns segundos e ouviu a carruagem 
partindo.
Ndia foi se arrastando e se acomodou melhor. com esforo, conseguiu se 
libertar do cobertor.
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com horror, pensou que estava cega ou havia morrido. No via nada!
Um cheiro de bolor e de umidade emanava daquele lugar. Devagar ela foi-
se acostumando com o escuro e viu ao longe uma pequena claridade.
Essa luz tnue devia vir das frestas da porta que os homens lhaviam
trancado.
com medo de se mover muito, pois no conhecia o lugar, iNdia se levantou
e comeou a tatear; ergueu as mos pois sabia que o teto no devia ser
muito alto. Logo ela tocou algo frio e cheio de pontas. Apanhando o
cobertor que estava aos seus ps, Ndia comeou a andar meio curvada,
cautelosamente, em direo  pequena claridade.
Ao chegar mais perto a claridade aumentou e ela pde perceber que estava
em uma mina. No era uma mina de carvo. com a mo ela empurrou a porta,
bateu nela com os punhos e viu que era muito grossa.
- Socorro! Socorro! - ela gritava com toda a fora de seus pulmes.
 Sua voz, no entanto, ecoava no tnel atrs dela.
com desnimo, ela pensou que ningum poderia ouvir, simplesmente porque o
lugar era deserto. Se no fosse assim, eles no a trariam ali.
As possibilidades de ela escapar eram poucas e as de morrer de fome e
sede comearam a ser mais plausveis. Ndia estremeceu novamente de
horror.
Naquela mina desativada talvez demorassem muitos dias para encontr-la e
ela morreria de fome e sede em lenta agonia.
Ela estendeu o cobertor no cho e sentou-se nele, encostando-se na porta.
Cobriu o rosto com as mos e comeou a rezar. Deus faria Warren captar
seu pedido de socorro! E ela ficou repetindo incessante e
incansavelmente:
- Salve-me! Salve-me! No quero morrer sem... v-lo novamente. Amo voc!
Amo voc!
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CAPTULO VII

O cabriole de Warren estava em frente ao solar.
Aquela pequena carruagem era usada apenas para curtas distncias como 
andar pela fazenda ou ir  casa de lady John.
Sem falar com nenhum criado, Warren saiu e subiu rapidamente no cabriole, 
sentando-se no lugar do cocheiro. Este, que estava sentado segurando as 
rdeas do cavalo, se afastou depressa para ceder seu lugar ao marqus.
Assumindo as rdeas do cabriole, Warren fustigou o cavalo que partiu com 
uma rapidez incrvel.
Warren sabia onde ficava a mina abandonada, mas h muitos anos no ia 
para aqueles lados. Ele achou estranho que Magnlia soubesse da 
existncia dessa mina.
A explicao plausvel era a de que ela talvez tivesse passado por l 
durante a temporada de caa. Havia raposas nos bosques e no matagal ao 
redor da velha mina, por isso os caadores eram atrados para aquelas 
paragens.
Mas a preocupao maior de Warren era Ndia. A pobrezinha deveria estar 
aterrorizada e em tal estado de desespero como na noite em que a 
encontrara em Paris.
S em pensar naquilo ele sentiu um dio homicida de Magnlia.
Ento ele percebeu que no s se preocupava com Ndia, como sentia por 
ela emoes jamais sentidas antes por mulher alguma! Ele estava 
apaixonado!
Fustigava mais e mais o cavalo que corria nas asas do vento. Warren 
queria estar logo com Ndia para confort-la, para dizer-lhe que a amava 
mais que tudo na vida.
Apesar de haver jurado que jamais se apaixonaria depois de ter sido 
trado por Magnlia, Warren foi honesto consigo mesmo e admitiu que desde 
os primeiros momentos que Ndia entrara em sua vida, ficara louco de 
amor.
O que  princpio parecera apenas afinidade e admirao
114 
provou ser um sentimento muito mais forte e duradouro. As maneiras
delicadas e discretas de Ndia, sua inteligncia e coragem o haviam
conquistado.
Warren tambm se sentia responsvel e cheio de orgulho por Ndia 
desabrochar para a vida novamente.
Comparando o que havia sentido por Magnlia e o que sentia agora por 
Ndia, viu que eram sentimentos bem diferentes. Por Magnlia havia 
sentido desejo, paixo. O amor por ela era como fogo que arde com 
violncia e que consome, mas no passa dos limites fsicos.
O que ele sentia por Ndia era mais puro e mais espiritual. No que a 
beleza dela no o atrasse, mas havia muito mais que simples atrao 
fsica. Ndia era completa; tinha, alm da beleza, vivacidade, 
inteligncia, bondade, ternura.
Como ele estava ansioso para chegar junto dela, para abra-la, acarici-
la e dissipar-lhe todos os temores.
Mais uma vez ele odiou Magnlia com todas as suas foras. No podia 
compreender como uma pessoa podia ser to m a ponto de atentar contra a 
vida de algum e depois ainda tramar um sequestro.
Oh, ele s podia se culpar por ter sido to obtuso e to ingnuo a ponto 
de no perceber que Magnlia no descansaria enquanto no conseguisse o 
que desejava.
Ela ansiava tanto por ser a marquesa de Buckwood que sua ambio a 
transformara em uma pessoa perigosa. Ela no podia, realmente, estar em 
seu juzo perfeito.
- Quem poderia dizer que sob aquele rosto angelical escondia-se uma alma 
demonaca? - pensou Warren. - Foi preciso um grande desapontamento para 
fazer vir  tona o verdadeiro carter daquela mulher!
De repente, um pensamento terrvel lampejou na mente de Warren. Magnlia 
poderia ter dado aos raptores de Ndia ordens para mat-la quando 
chegassem na mina.
quele simples pensamento Warren sentiu-se transpassado por uma espada.
Se perdesse Ndia teria perdido o que considerava o bem mais precioso de 
sua vida.
Novamente, ele chicoteou o cavalo a ponto de deixar o cocheiro assustado.
Jim era um dos cavalarios mais jovens. Por ser muito tmido e discreto 
Warren sempre saa com ele. Era de um rapaz assim que ele precisava. No 
queria testemunhas para o que estava acontecendo ou o que aconteceria 
dentro de poucos instantes.
Depois de atravessarem o bosque, por uma estrada estreita, entraram em um 
terreno cheio de touceiras de mato e em seguida passaram por um grupo de 
rvores. Warren teve que diminuir a velocidade porque a estrada era muito 
irregular.
Atrs das rvores havia um grande declive no terreno onde a mina havia 
sido escavada originariamente.
Recordaes da infncia passaram pela cabea de Warren. Ele se lembrava 
de que h muitos anos havia um grande nmero de operrios trabalhando 
ali, mas a quantidade e a qualidade da ardsia obtida no compensava os 
custos, e a minerao foi abandonada. Os operrios ento arranjaram 
servio nas fazendas. Como os tneis eram lugares perigosos que podiam 
desabar, o tio mandara fechar as entradas e proibira as crianas de 
brincarem ali.
Seria mais fcil descer a p at a entrada do tnel e Warren deu as 
rdeas a Jim, dizendo:
- Espere aqui.
Depois desceu correndo o declive, impelido por um sentimento de urgncia. 
Ndia, mais que nunca, precisava dele.
Enquanto caminhava, avistou a pesada porta que estava trancada com um 
grande cadeado. Ele no pde deixar de pensar que Magnlia fora to 
esperta a ponto de conseguir at a chave do cadeado. Ah, deveria ter 
exigido dela a chave para abrir aquela pesada porta. Mas era mais 
provvel que a chave tivesse sido atirada longe ou ento estivesse com os 
homens e no com Magnlia.
Novamente, como um relmpago, veio-lhe um pensamento terrvel: Magnlia 
poderia t-lo enganado e Ndia estaria em outro lugar e no ali. Ento 
ele comeou a gritar:
- Ndia! Ndia! Seu corao quase parou quando ele ouviu Ndia chamando-
o: - Warren! ... voc?
115
- Sou eu! Estou aqui!
- Tinha certeza que viria! Rezei tanto para que viesse me salvar!
- vou tir-la da num instante. S preciso arrombar esta porta.
Sem ferramentas seria difcil pr abaixo aquela porta ou abrir o cadeado. 
Ele comeou a examinar a porta, feita por carpinteiros da vila, e viu que 
ela era presa por dois gonzos, de ferro encaixados em dois ganchos.
Ento, com jeito, fez uma espcie de alavanca com uma pedra e um pedao 
de pau. Depois, com uma fora que ele no possua um ano atrs, pois era 
resultado da vida dura no deserto, Warren conseguiu erguer a porta, 
fazendo os gonzos soltaremse dos ganchos.
A porta tombou para o lado com estrondo que ecoou pelo tnel. Warren viu 
Ndia olhando para ele com o rosto iluminado pela alegria. Ela correu 
para ele, esgueirando-se pelo vo deixado pela porta que pendia, presa 
pelo cadeado.
Warren estendeu a mo e puxou-a para fora, tirando-a da escurido da mina 
para a luminosidade do sol.
Sentindo-se salva e amparada pelos braos de Warren, ela desatou num 
pranto convulsivo.
com o rosto escondido no ombro dele, ela disse entre soluos:
- Senti tanto medo de que... no viesse me salvar! Pensei que no 
fosse... ouvir o meu apelo!
- No chore! J encontrei voc! No h mais perigo disse com voz profunda
e com muito carinho.
Ndia levantou a cabea e olhou para Warren; as lgrimas ainda lhe 
rolavam mornas e copiosas pelas faces.
Mesmo com o rosto banhado de lgrimas ela estava linda.
Warren abaixou a cabea e os lbios deles se tocaram.
Para Ndia foi como se o cu se abrisse e tudo que ela mais desejava na 
vida tornava-se realidade.
A princpio ela se entregara timidamente quele beijo, mas depois o beijo 
tornou-se apaixonado, mais insistente e arrebatador.
Os dois ainda ficaram enlaados por uns momentos, depois Warren ergueu a 
cabea e perguntou:
- Est bem, minha querida? No machucaram voc?
- Estou bem. Que bom ter voc ao meu lado! Fiquei com tanto medo de 
que... nunca mais me encontrasse!
- Claro que iria encontr-la! Esquea todos esses momentos de agonia. 
Tudo est bem.
Ele tornou a beij-la. Era agora um beijo possessivo e demorado, como se 
Warren quisesse certificar-se que Ndia lhe pertencia e que nunca mais 
iria perd-la.
Depois desse segundo beijo, ambos ficaram se olhando apaixonados. Warren 
pensou que no podia haver no mundo uma mulher como Ndia, to radiante, 
arrebatada e gloriosamente feliz.
Ndia, por sua vez, sentia que era um ser etreo que vivia em outras 
dimenses, num mundo cheio de luz e felicidade.
Warren dizia e repetia vrias vezes, como se quisesse compensar o tempo 
que havia perdido sem fazer essa declarao:
- Amo voc, Ndia! Voc  s minha!
- Tambm o amo demais! Mas... pensei que no me... amasse!
- Amo-a como jamais amei ningum. Para que no se exponha a novos perigos 
e a novos horrores, quero casar-me com voc o mais depressa possvel!
Para surpresa dele, Ndia ficou rgida. Ela virou-se e escondeu o rosto 
nos ombros largos de Warren.
- O que aconteceu? No posso acreditar que no queira se casar comigo.
- Amo-o com toda a minha alma. Para mim, voc  a pessoa mais adorvel do 
mundo mas no posso... me casar com voc.
Warren apertou-a mais fortemente e perguntou:
- Por que, Ndia, por qu?
No houve resposta imediata e ele compreendeu o que se passava. Para 
tornar as coisas mais fceis, disse:
- Sei que tem um segredo. Se me ama e se deseja se casar comigo, precisa 
confiar em mim. Juro que qualquer que seja
esse segredo, vou lutar para que ele no a impea de se casar comigo.
- No... No quero que se envolva! Podem ferir voc... tambm.
- O que j est me ferindo  o fato de no confiar em mim. Ndia tremia, 
demonstrando como estava perturbada.
- Voc j sofreu demais por hoje. vou lev-la para casa e conversaremos 
depois. Alm disso, este lugar no  nada romntico para estarmos falando 
de nosso amor.
Ndia ergueu a cabea e ele viu que ela sorria entre as lgrimas.
- Qualquer lugar  romntico quando voc diz que... me ama.  verdade 
que... me ama mesmo?
- Meu amor por voc  to grande que jamais pensei que existisse um 
sentimento assim. Mas vamos sair daqui. No devemos ficar aqui nem mais 
um minuto.
Warren deu a mo para Ndia e juntos comearam a subir o caminho ngreme 
e cheio de pedras. Logo chegaram  sombra da rvore onde Jim esperava com
o cabriole.
Depois de erguer Ndia e acomod-la no assento da pequena carruagem, 
Warren tomou as rdeas e Jim subiu na parte de trs.
Durante o caminho de volta, Ndia se recostou no macio assento estofado, 
pensando em que nada mais importava no mundo a no ser o amor que ela e 
Warren sentiam um pelo outro. Seu corao batia apressadamente e ela 
ouvia sininhos dentro de sua cabea tocando festivamente. Ah, ela amava e 
era correspondida!
Todavia ela precisava ser firme. No podia permitir que Warren se 
envolvesse com seus problemas. No, ele no poderia viver como ela sob o 
clima de tenso, o terror rondando sua vida... o terror que solapara a 
sade de sua me at destru-la por completo.
"Seria melhor se eu fosse embora", pensava Ndia consigo mesma.
Ao pensar que, para o bem de Warren, deveria deix-lo, o corao dela se 
afligia. Seria doloroso demais saparar-se do homem que tanto amava.
Warren e Ndia no conversaram durante todo o percurso de volta, pois Jim 
estava logo atrs deles.
Felizmente o cavalo corria bastante e no tardaram a entrar no parque e 
logo estavam no solar. Warren preferiu que Ndia ficasse ali mais um 
pouco, antes de ir para a casa de lady John.
Warren precisava decidir o futuro de ambos e era ali em Buckwood, onde 
Ndia viveria como sua esposa, que ele queria ter uma conversa sria com 
ela.
Descendo do cabriole, Warren deu a volta e ergueu Ndia do assento e a 
ps de p, no cho. Depois, passou o brao pelos ombros dela e juntos
entraram no solar.
Warren quis levar Ndia  biblioteca, mas  simples lembrana de que h
poucas horas Magnlia estivera ali, mudou de ideia e foram ambos para a
sala de estar.
A sala estava cheia de flores e iluminada pelos ltimos raios do sol. A 
tarde findava. O enorme candelabro de cristal, beijado por um dos raios 
de sol, agradecido, o decomps numa multiplicidade de cores que ficavam 
brincando travessas na parede branca.
Depois de fechar a porta, Warren tomou Ndia pelo brao e a levou para um 
cantinho aconchegante perto da lareira, sentando-se os dois em um 
elegante sof.
- Minha querida - ele comeou -, sei que passou por maus momentos. Posso 
preparar-lhe um drinque?
- Obrigada, prefiro no beber nada. Estou bem. Tambm estou muito feliz 
por estar aqui ao seu lado, longe daquela mina escura, mida e 
assustadora.
Ndia notou que Warren olhava para ela como nunca o fizera antes. 
Encabulada, ela disse:
- Devo estar... horrvel depois de ficar tanto tempo enrolada naquele 
cobertor e jogada na mina... Devo estar toda suja.
- Voc est linda e adorvel! Como me sinto feliz por ter voc!
- Acho que a minha vinda para c s lhe causou... problemas.
- No, querida. No se culpe. Felizmente tudo terminou!
Acho que o nico meio de afastar Magnlia de vez  tornando-se minha 
esposa.
Ele estava segurando a mo de Ndia e sentiu que ela estremeceu ao dizer:
- No poderia sonhar com algo mais maravilhoso do que tornar-me sua 
esposa. Porm... justamente por am-lo mais do que tudo no mundo, no 
posso p-lo em perigo.
- Por que eu estaria em perigo? Ndia virou o rosto evitando responder. 
Nesse instante o sr. Greyshott entrou na sala,
- Soube que estava de volta, milorde, e achei que talvez quisesse ler os 
jornais que acabaram de chegar.
O secretrio aproximou-se, ps os jornais sobre uma banqueta com o 
assento bordado em gobelino e disse casualmente:
- Os jornais dizem que o czar Alexandre in est nas ltimas, com 
hidropsia. Em 1882 seu tio, o marqus, esteve em So Petersburgo 
representando a rainha na coroao do czar. Lembra-se disso?
Warren tentava recordar-se, mas foi Ndia quem respondeu:
- Eu me lembro claramente da coroao do czar. Depois, com uma voz que 
soou estranha e distante, ela voltou para o sr. Greyshott e perguntou:
- O senhor disse que... no h esperana... de que o czar sobreviva?
-  o que dizem os jornais. O Morning Post, por exemplo, diz que no h 
esperana para o czar.
Os dois cavalheiros ficaram olhando surpresos para Ndia, pois ela havia 
coberto o rosto com as duas mos, parecendo muito agitada.
O sr. Greyshott compreendeu que era melhor ele deixar o marqus e a noiva 
a ss.
Assim que o secretrio saiu, Warren passou o brao ao redor de Ndia e 
trouxe-a para o doce aconchego de seus ombros fortes.
- Parece que o que acabou de ouvir tem um grande significado para voc, 
querida.
- Significa que, se o czar morrer... estarei salva! - a voz dela tremia. 
- Ah, se mame estivesse viva!
121
Warren a trouxe para mais juntinho dele.
- Conte-me tudo, querida. Parece que ia mesmo me revelar tudo quando o 
sr. Greyshott nos interrompeu.
- Quero que saiba que no desejo esconder nada de voc. Entre ns no 
pode haver mais segredos.
- Ento livremo-nos deles.
Ndia olhou para Warren e, apesar de ainda haver lgrimas em seus olhos, 
sua expresso estava incrivelmente transformada. Ela estava serena e 
feliz.
No fora s o amor que a deixara com aquele ar radiante. Ndia agora 
parecia haver recuperado, finalmente, a liberdade, a alegria da 
juventude, enfim, o direito a uma vida tranquila.
Dando um longo suspiro, ela comeou a contar:
- Meu verdadeiro nome  princesa Ndia Korzoki e meu pai era o prncipe 
Ivan Korzoki.
- Voc  russa! - exclamou Warren.
- Bem, na verdade meio-russa. Voc pensou que eu fosse inglesa, lembra-
se?
- Tinha certeza disso, mas... conte-me tudo.
- Mame era filha do embaixador britnico em So Petersburgo e meu pai se 
apaixonou por ela assim que a viu. Eles no tiveram permisso imediata do 
czar Alexandre II para se casarem. Como papai insistira, o czar afinal 
consentiu no casamento, desde que os dois fossem viver em um castelo, em 
uma grande propriedade, que ficava na fronteira com a Hungria. Mesmo 
levando uma vida mais simples, longe da corte, meus pais foram muito, 
muito felizes e nunca lamentaram a escolha que ambos haviam feito.
- Por isso  que monta to bem. Aprendeu na Rssia?
- Sim, e tambm na Hungria, mas logo chegarei l.
- Continue, querida.
- Sempre me lembrarei de como ramos felizes em nosso castelo. Mas papai 
ficou chocado quando o czar Alexandre II foi assassinado. Isso aconteceu 
h treze anos. O filho do czar, que subiu ao trono, fez uma poro de 
reformas no pas e revogou uma poro de atos do pai. Uma das primeiras 
coisas que fez foi rasgar um manifesto que ainda no estava assinado, o 
qual permitia uma forma, embora limitada, de um governo
representativo na Rssia. Logo ficou claro que o czar Alexandre in estava 
determinado a trazer de volta  Rssia todas as crueldades que seu pai 
comeara a eliminar.
Ndia fez uma pausa e parecia que lhe doa ter que falar naquele assunto. 
Quase num murmrio, ela continuou:
- A pior de todas as crueldades era que o czar estava decidido a destruir 
os judeus.
Warren sabia disso, mas preferiu no interromper a narrativa e Ndia 
prosseguiu:
- Como as terras de papai ficavam na fronteira, muitos dos judeus 
arrebanhados pelos cossacos passavam por ali, a caminho da Europa 
Ocidental. Todos estavam famintos, muitos iam acorrentados e alguns 
tinham sinais de tortura e de maus tratos.
Para Ndia, a descrio da cena era dolorosa demais e ela lutava contra 
as lgrimas que teimavam e inundavam seus olhos para, em seguida, rolarem
pelas faces.
- Mame chorava  noite - continuou ela -, morrendo de pena ao ver o
sofrimento daquele povo. Papai ajudava no que podia, com alimento e com
dinheiro.
- Mas seu pai teve algum envolvimento?
- Papai era muito amigo de um famoso cirurgio judeu. Uma noite esse 
cirurgio chegou em nosso castelo dizendo que soubera que seria preso e 
levado para So Petersburgo para ser interrogado. Meus pais sabiam que 
ele seria torturado e que morreria em lenta agonia.
- Seu pai salvou-o?
- Sim, mandou-o com a esposa para a Hungria e deu-lhe uma boa quantia em 
dinheiro para recomear a vida na Europa. Mas, claro, o czar foi 
informado disso. Felizmente o prncipe Nicolau, amigo de papai e muito 
corajoso, arriscou-se a mandar seus criados avisarem meu pai do perigo 
que corria. Assim que foi avisado papai se apressou em mandar mame e eu 
para o outro lado da fronteira, em territrio hngaro. Ali estaramos a 
salvo.
- Mas ele no fugiu com vocs?
- Mame e eu imploramos para ele ir conosco, mas ele foi irredutvel.
i122
- No quero fugir do meu prprio pas - ele disse. - No acredito que o
czar v me executar por ajudar um velho amigo!
- Mas... ele morreu?
- Papai foi... assassinado. Mas s ficamos sabendo disso mais tarde. Logo 
mame e eu recebemos ordens do czar para voltarmos  Rssia. Seramos 
julgadas como traidoras por ajudar os judeus que eram considerados 
inimigos da Rssia.
- Era por isso que precisavam viver escondidas?
- Seramos mortas... como papai j havia sido!
Ndia estava chorando e Warren abraou-a. com voz suave disse:
- No precisa dizer mais nada. As tristes lembranas fazemna sofrer 
muito.
- No! Preciso contar-lhe tudo... J quis fazer isso antes. S que tinha 
muito medo!
Warren beijou-a na testa e continuou abraado a ela. Ndia continuou a 
narrativa com determinao.
- Desde ento passamos a viver um pesadelo. Ficamos em casa de amigos na 
Hungria, mas, claro, no queramos envolv-los. Mame planejou fugir para 
a Frana e dali iramos para a Inglaterra onde estavam todos os seus 
parentes. Mas a Polcia Secreta Russa no desiste facilmente e nos 
descobriu ainda na Hungria. Desde ento vivemos fugindo sempre, 
procurando morar em pequenos principados. H poucos meses chegamos em 
Paris.  difcil lembrar detalhes... mas foi tudo terrvel. Apesar de 
termos o apoio de amigos, no abusvamos da bondade deles e fomos 
gastando o que tnhamos para sobreviver. Mesmo as jias, mame tinha medo 
de vender e deixar uma pista para nossos perseguidores. Mas tnhamos que 
correr o risco. Em Paris vivamos em um sto pobre e sujo.
Ndia fez um gesto de desalento com as mos e terminou:
- Voc sabe o fim de nossa histria... Mame morreu... e eu queria morrer 
tambm.
- O bom Deus me guiou at o Sena para impedi-la de fazer tal loucura. 
Mas, minha adorada, tudo est bem agora! O prncipe Nicolau  seu amigo e 
tenho certeza de que assim que subir ao trono cessar a perseguio aos 
judeus.
- Voc acha mesmo que estarei... a salvo?
- Estar a salvo sendo minha esposa. E no vamos mais esperar que o czar 
morra para nos casarmos. S minha me saber qual  seu verdadeiro nome. 
As outras pessoas a conhecero pelo nome que inventamos, ou melhor, voc 
ser para todos a marquesa de Buckwood.
Mais tarde, quando voc no correr mais perigo, poderemos contar a 
verdade e sei que todos vo admir-la por sua coragem.
- No fui to corajosa assim... quis at me matar.
- Felizmente aceitou vir comigo. Adoro voc, minha linda princesinha! 
Todos os horrores e misrias de sua vida terminaram. Aqui voc viver em 
paz. S h o perigo de achar a vida aborrecida demais, depois das grandes 
aventuras que viveu!
- ele disse em tom de brincadeira.
Ambos riram. Ndia passou seus braos em volta do pescoo de Warren e 
disse:
- Morar aqui  como estar no paraso. Tudo parece um sonho.
- Sonhos tambm podem tornar-se realidade. Esquea as perseguies e ex-
noivas ciumentas. Concentre-se apenas em ser a minha esposa e a marquesa 
de Buckwood.
- Sim. Esquecerei o pesadelo para viver o sonho. Warren lembrou-se de 
Magnlia. Apavorada como ela havia
ficado com a ameaa que ele lhe fizera, ela desapareceria da vida dele. 
Afinal, era s a beleza que restava para Magnlia; no podia arriscar-se 
a perd-la.
Warren precisava obter uma licena especial de casamento e para isso 
recorreria ao arcebispo de Canterbury que ele conhecia e que fora muito 
amigo de seu tio. Ele escreveria uma carta explicando os motivos que 
impediam de ir ter com o arcebispo pessoalmente e solicitaria a licena 
especial de casamento.
Ndia e ele poderiam casar-se ali mesmo, na capela de Buckwood s com a 
presena de sua me e de testemunhas. Mais tarde, anunciariam que haviam 
se casado em segredo por ele estar de luto.
Convidariam os parentes e os amigos para uma recepo ao ar livre, nos 
jardins do solar, como ele havia prometido.
O que importava, realmente, naquele momento era que Ndia no ficasse 
mais sozinha. Poderia ser ameaada novamente.
Warren sentia-se feliz ao planejar tudo aquilo. Ele disse exultante:
- Pode deixar tudo comigo. No h problemas que no possam ser resolvidos 
nem dificuldades que no possam ser superadas. Sou o homem mais feliz do 
mundo porque amo voc e tenho o seu amor.
- Tambm o amo muito! Mas est certo de que no corremos perigo? Sou 
procurada pela Polcia Secreta Russa. Sou... uma fugitiva. Casando-se 
comigo poder ter complicaes.
- Nenhum mal vai acontecer. S no posso perder voc. Quero que esquea 
todos os horrores do passado.
Warren beijou o rosto de Ndia para anim-la e prosseguiu:
- Vamos encontrar os parentes de sua me. Eles faro voc sentir que este 
pas tambm  seu. Voc tem razes aqui. Voc amar muito mais a 
Inglaterra quando se sentir parte dela, quando consider-la sua ptria e 
sentir-se dona de Buckwood. Ter orgulho deste pas como eu tenho e 
transmitiremos esse mesmo sentimento aos nossos filhos.
Ndia no poderia estar mais emocionada. As lgrimas que inundavam seus 
olhos eram de felicidade.
- Desde minha infncia aprendi com minha me a amar este pas. Em meio s 
minhas tribulaes, horrores e misrias, sonhava em chegar at aqui com 
minha me. Sonhvamos com a Inglaterra como um porto de salvao. 
Finalmente, estou em... casa.
- vou empenhar-me para que viva aqui plenamente feliz. Juro que no ter
mais temores. As trevas se dissipariam.
O beijo a que se entregaram foi to demorado e to ardente que ambos se 
sentiam flutuando, rodopiando, no entre aquelas quatro paredes, mas no
espao infinito.
Quando seus lbios se separaram ouviram o concerto alegre da passarada 
que retornava para os ninhos anunciando que a tarde estava prestes a 
terminar. O sol mergulhava no poente, ostentando ainda os ltimos 
esplendores de sua glria.
- Amo voc! - ele disse com voz profunda.
- Lembro-me de que disse em Paris que pretendia se casar por convenincia 
- Ndia disse provocando-o.
-  que eu no estava apaixonado por voc. vou me casar porque amo uma 
adorvel princesa. O que sinto quando estou com ela  diferente de tudo 
que j senti at hoje e de tudo que j imaginei.
- O que sente?
- Excitao e ternura; enlevo e loucura e alguma coisa mais.
- O que ?
- A deliciosa sensao de ter descoberto o maior tesouro do mundo. Uma 
jia perfeita, uma criatura adorvel que quero ter ao meu lado por toda a 
minha vida e a quem quero proteger de todo o mal.
- Tudo isso sou... eu?
-  voc minha querida.
Warren ficou de p e deu a mo para Ndia levantar-se tambm.
- vou lev-la para casa de mame, ele disse - s minha me e ningum mais 
deve ficar a par de sua verdadeira histria. Quando eu voltar escreverei 
para o arcebispo. Poderemos nos casar depois de amanh.
Ndia irradiava felicidade. Warren sorriu carinhosamente para ela e 
continuou:
- Depois de casados vamos deixar Buckwood com o pretexto de visitar as 
outras propriedades mais distantes que herdei. Porm, essa viagem ser, 
na verdade, nossa lua-de-mel. Ficaremos uns dias... a ss.
- Ser maravilhoso!
- Iremos primeiro a Devonshire onde tenho uma casa muito confortvel e 
sossegada. Alm disso  um lugar maravilhoso! Depois iremos para 
Leicestershire para ver...
Ndia o interrompeu:
- Calma! Vai indo depressa demais. Tenho medo.
- Tem medo de mim?
- No! - ela deu um pequeno grito. - Jamais teria medo de algum to 
maravilhoso como voc. O que quis dizer  que talvez esteja sendo... 
precipitado demais. No seria melhor ir mais devagar? Ou... esperar um 
pouco?
127
- No h o que esperar nem o que pensar. Est tudo resolvido - disse 
Warren com deciso. - Sou o homem mais feliz do mundo. Adoro voc! Adoro 
a vida! Vamos viver o nosso amor. Quando temos um tesouro em nossas mos, 
queremos, egoisticamente, que seja s nosso.  isso o que sinto. No 
posso me arriscar a perd-la, minha encantadora princesa!
Warren enlaou Ndia em seus braos.
A felicidade de ambos era to genuna que chegava a ser comovente.
Ndia estava calada, mas a expresso que havia em seu olhar dizia que ela 
pertencia de corpo e alma a Warren.
Em uma frao de segundos ela reviveu mentalmente os momentos trgicos 
que vivera naqueles poucos dias. Em todos eles Warren fora seu salvador. 
Ele salvara no s a vida dela, mas sua prpria alma, pois a impedira de 
dar o passo fatal, que a faria mergulhar na escurido do esquecimento e 
da condenao eterna.
- Sou toda sua... de corpo e alma! - ela murmurou, Graas a voc 
reencontrei o verdadeiro sentido da vida que  o amor. Devo-lhe tudo!
- E voc foi para mim um presente do destino... ou de Deus. Nunca sonhei 
que seria possvel encontrar uma criatura to adorvel como voc! Voc 
entrou em minha vida para tirar-lhe o amargor e trazer a esperana. 
Tambm lhe perteno.
Juras to sinceras s poderiam ser seladas com um beijo longo, clido e
apaixonado. Depois Warren disse baixinho:
- vou am-la todos os dias de minha vida e, depois, por toda a 
eternidade.
- Sim. Vamo-nos amar para todo o sempre.
A terra pode parar de girar, as estrelas podem perder sua luz, mas nosso 
amor perdurar. Viver eternamente.
Warren e Ndia se entregaram por inteiro a um beijo que os fez atingir 
toda a gama de sensaes possveis. Foi um beijo terno, apaixonado, 
impetuoso, imperioso, sublime!
Ndia no poderia estar mais exultante. Encontrava o amor, uma nova 
ptria e, enfim, a paz.

                            *******

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides 
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo 
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de 
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
*** Fim.
Fim